domingo, 16 de dezembro de 2018

A cura pode estar aqui (ou dentro da sua cabeça)

Imagem para simples ilustração, postada pelo blog

Texto publicado originalmente no site da revista Super Interessante, em 31/10/2016

A cura pode estar aqui (ou dentro da sua cabeça)

Um paciente que acredita no tratamento melhora mesmo tomando pílulas de farinha?

Por Maria Fernanda Vomero

Se você perguntar para um grupo de médicos se um deles já teve algum paciente que melhorou de forma surpreendente sem recorrer a remédios ou cirurgias, certamente vai ouvir muitas histórias. Se fizer a mesma pergunta aos amigos, é provável que descubra casos interessantes de gente que sarou sem passar pelo ambulatório. Foi a vizinha que se curou do câncer, o tio que espantou a insônia, o colega que se livrou da artrite. Não se trata de conversa fiada nem de fenômeno sobrenatural. Melhoras ou curas como essas começam a ser vistas pela ciência como provas da participação ativa da mente – ou seja, das emoções, crenças e expectativas – no tratamento de uma doença física. É o efeito placebo.

Placebo é um termo emprestado do latim. Significa “agradar”. Serve para designar a substância inócua usada em experimentos clínicos que testam a eficácia terapêutica de uma nova droga. Nesses experimentos, os pacientes são divididos em dois grupos: o primeiro recebe o novo medicamento e o segundo, que servirá de controle, o placebo. São testes chamados de duplo-cegos, porque nem o paciente nem o médico sabem que indivíduo receberá qual substância – a informação é mantida em sigilo pela equipe coordenadora até o fim da experiência. Ao contrário da droga estudada, o placebo não tem princípio ativo. Pode ser uma pílula de farinha, uma cápsula com açúcar ou uma ampola com soro fisiológico – desde que a semelhança com o remédio de verdade seja perfeita. Teoricamente, não deveria provocar efeito algum. No entanto…

“O índice de melhora do grupo que recebe placebo chega a 40% dos casos, em média”, afirma o psiquiatra Elisaldo Carlini, da Universidade Federal de São Paulo. Isso mostra que até quatro em cada dez pacientes sente alívio de algum sintoma físico somente por tomar um remédio de mentira acreditando que é verdadeiro. Eis o efeito placebo. A vontade de se curar, a crença no médico ou no poder terapêutico da substância trazem benefícios para o doente, desde potencializar a ação de um medicamento até reverter um quadro de dor, por exemplo. “O efeito placebo é real. Trata-se de ciência e não de esoterismo ou magia, como muita gente pensa”, diz o farmacêutico José Carlos Nassute, professor da Universidade Estadual Paulista, em Araraquara.

Casos para comprovar o fenômeno não faltam. “Se a medicina não contar com a crença do paciente em sua própria melhora, nada funciona”, afirma Carlini. Ele se recorda de uma experiência realizada no Hospital São Paulo, na capital paulista, com uma substância que teria propriedades antiepiléticas. Foram selecionados pacientes com epilepsia severa, que, no ano anterior, haviam tido pelo menos uma crise por semana e que não reagiam mais a nenhum medicamento. O estudo seguia o modelo duplo-cego e obteve a aprovação do comitê de ética do hospital.

Entre os que receberam o placebo estava um paciente chamado João. Era um homem humilde e apresentava duas ou três convulsões por semana. Durante os seis meses de acompanhamento, em que recebia uma cápsula com açúcar cristal por semana, João não teve nenhuma crise. “Seria difícil explicar para ele o fim da experiência”, diz Carlini. “Então, durante mais de um ano, continuamos a lhe dar o placebo. Lembro-me de que ele nem sempre tinha dinheiro para pagar a condução. Mas fazia questão de nos trazer uma caixa de bombons sempre que possível, quando vinha buscar as cápsulas.”

Carlini analisa a história de João dentro do contexto do sistema de saúde brasileiro. Em geral, diz ele, os pacientes costumam ser atendidos em ambulatório, enfrentar filas de espera e consultas rápidas, cada vez com um profissional diferente. Quando são selecionados para participar de um estudo, recebem toda a atenção da equipe médica, em horários agendados, e têm o tratamento supervisionado do começo ao fim. “Esse paciente, ao ser tratado dessa maneira, deseja melhorar. Ficar bom é uma forma de agradecer ao médico que o atende com tanta atenção”, diz Carlini. Ele e outros cientistas reconhecem que a gratidão do paciente pode desencadear o efeito placebo, assim como outros fatores presentes na relação com o médico. Um cumprimento mais afetuoso ou mesmo um procedimento complexo, como a cirurgia, também podem induzir uma melhora.

“A intensidade do fenômeno depende tanto da doença que está sendo tratada quanto da natureza do placebo”, diz o psicólogo americano Irving Kirsch, da Universidade de Connecticut, que há 25 anos estuda o assunto. “Placebos apresentados como se fossem remédios de uma marca conhecida provocam mais efeito do que aqueles tidos como genéricos. E injeções de substâncias inócuas são mais efetivas do que as pílulas da mesma substância.” Quanto maior e mais dramático parece ser o procedimento terapêutico, maior o efeito placebo para o paciente.

Um exemplo da influência das expectativas aconteceu no Texas, Estados Unidos. Dez pacientes, com fortes dores no joelho devido a artrite, aguardavam a vez de serem operados pelo cirurgião americano J. Bruce Moseley. Cético sobre os reais benefícios da cirurgia, Moseley resolveu fazer um teste. Conseguiu a aprovação do comitê de ética do hospital e o consentimento dos pacientes. Os dez homens seriam anestesiados e levados para a sala de operações. No entanto, apenas dois deles seriam submetidos à cirurgia completa, que consiste em retirar parte da junta inflamada e lavar a região afetada. Três teriam apenas a área atingida lavada e, nos cinco restantes, seriam feitos apenas três pequenos cortes superficiais no joelho, imitando os normalmente adotados nesse tipo de cirurgia. Seis meses depois, os dez pacientes ainda não sabiam a que tipo de procedimento haviam sido submetidos, mas todos eles sentiram o mesmo grau de diminuição das dores.

O efeito placebo não se restringe aos testes. “Está presente em todo ato terapêutico”, diz o médico Eduardo Baleeiro, da Universidade Federal da Bahia. “Na minha experiência clínica, o fenômeno placebo não aparece como exceção, mas sim como a regra.” Ele conta a história de um homem de 74 anos que estava com câncer de laringe e, por isso, apresentava uma rouquidão constante. Foi submetido a duas sessões de radioterapia, sem sucesso.

Baleeiro e sua equipe, ao ver o tamanho do tumor, optaram por uma cirurgia para a remoção da laringe. Se não fosse operado, acreditavam, o paciente provavelmente morreria em poucos meses. Mas o homem negou-se a passar pela cirurgia pois, sem laringe, não poderia fazer o que mais gostava: nadar diariamente e tocar sua gaita de sopro. (Depois da cirurgia de retirada da laringe, os pacientes passam a respirar por um orifício no pescoço.) Ele procurou, então, seu médico de confiança, que lhe propôs um tratamento sem cirurgia. “O paciente está vivo há mais de cinco anos, graças à sua determinação e à incondicional confiança naquele médico”, afirma.

Mas, tanto nos experimentos quanto no consultório, os médicos encontram também casos de efeito nocebo – o fenômeno inverso ao placebo. “O paciente pode, ao tomar uma substância inócua, sentir os mesmos efeitos colaterais que um remédio causaria”, diz Robert Hahn, especialista em antropologia médica do Centro de Controle de Doenças do governo dos Estados Unidos. “Às vezes, também, as expectativas do paciente quanto ao tratamento são tão negativas que acabam bloqueando ou invertendo a ação do medicamento verdadeiro.”

Auto-sugestão? Os pesquisadores admitem que a mente desempenha um papel fundamental no efeito placebo (e no nocebo também). “Está mais do que provado que as emoções podem desencadear alterações físicas”, diz o farmacêutico José Nassute. Por que o mesmo antibiótico passa a “agir” quando você muda de médico? “Em certas doenças, a fé do paciente na cura pode funcionar por si só”, afirma o cardiologista americano Herbert Benson, fundador do Instituto Médico Mente e Corpo, ligado à Universidade de Harvard. “Em outras, a fé potencializa os efeitos da medicação. Isso quer dizer que a mente participa do tratamento. Mas não substitui os remédios e cirurgias que existem.”

Para a psicóloga Denise Gimenez Ramos, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, o efeito placebo soa como um fenômeno inexplicável porque o ser humano se acostumou a enxergar a capacidade de cura como algo externo a si mesmo. “Projetamos o efeito curador no médico, no remédio, na cirurgia, num objeto mágico, numa imagem sagrada – ou no placebo.”

Denise cita a história do paciente Wright, um americano com câncer em estado avançado, que ficou famoso na medicina pela evidência do poder dos efeitos placebo e nocebo. Doente terminal, Wright apresentava tumores grandes e respirava com a ajuda de tubos de oxigênio. Ele descobriu que o hospital em que estava internado iria realizar testes com uma nova droga, o krebiozen, e pediu para ser incluído no grupo a ser estudado. Apesar de desenganado, estava tão entusiasmado que os médicos não tiveram alternativa senão aceitá-lo nos testes.

Dias depois das primeiras aplicações de krebiozen, Wright deixou o hospital recuperado. Mas isso só durou até os jornais divulgarem pesquisas que questionavam o efeito terapêutico da droga. Wright ficou deprimido. Seus tumores voltaram, ele teve uma recaída fulminante e foi internado novamente, em estado grave. O médico, percebendo o efeito placebo, disse que tinha disponível krebiozen refinado, muito mais eficaz que a versão anterior. Wright recuperou a confiança na cura e, depois das injeções de placebo, recebeu nova alta. Quando o relatório final da Associação Médica Americana foi divulgado, dizendo que a droga de fato não funcionava, Wright retornou ao hospital e, dias depois, morreu.

Pode parecer que o fenômeno não passa de um jogo de emoções. Mas os cientistas apontam algumas explicações fisiológicas para os efeitos placebo e nocebo. Muitos deles apostam no reflexo condicionado. A repetição de um estímulo acaba acostumando o sistema nervoso a responder sempre da mesma maneira. Quem elaborou essa teoria foi o fisiologista russo Ivan Pavlov (1849-1936). Durante meses, ele tocava um sino e, em seguida, alimentava seus cães. Com o tempo, bastava tocar o sino para que os animais começassem a salivar, mesmo que não houvesse ração.

“Mas o condicionamento pavloviano nada tem a ver com expectativas pessoais”, diz o psicólogo Shepard Siegel, da Universidade McMaster, no Canadá, especialista no assunto. Ele cita um caso clássico de pessoas com alergia ao pólen – mesmo quando expostas a flores de plástico desenvolviam uma grave reação alérgica. “A associação entre a imagem da flor e a lembrança do malefício do pólen trazia a mesma reação à visão daquelas flores artificiais.”

Outro interessado em entender a fisiologia do placebo, o italiano Fabrizio Benedetti, da Universidade de Torino, constatou que as nossas expectativas podem evitar ou disparar a sensação de dor. Ou seja, nossa mente teria um poder analgésico, sim. E seria capaz de anestesiar uma parte do corpo e não outra, dependendo da resposta específica ao placebo. Voluntários que passaram um placebo na mão, acreditando ser um gel contra a dor, afirmaram que a sensibilidade das mãos diminuiu, ao contrário da dos pés. “Concluímos que na diminuição da dor provocada pelo placebo há participação das substâncias narcotizantes do nosso próprio cérebro quando fatores cognitivos, como expectativas e crenças, estão envolvidos.”

Mesmo com tantas evidências, há quem coloque em dúvida a existência do fenômeno na maioria dos casos já descritos. Em maio deste ano, dois pesquisadores dinamarqueses publicaram um estudo comparando o efeito placebo com a ausência de tratamento. A conclusão surpreendeu o meio científico. Após analisar 114 pesquisas com quase 7 500 pacientes em 40 diferentes condições, eles concluíram que não há dados suficientemente seguros para afirmar que os doentes melhoram só por acreditar que um falso tratamento é real.

“Constatamos que a porcentagem de melhora atribuída ao efeito placebo não era estatisticamente significativa”, diz o médico Asbjorn Hrobjartsson, da Universidade de Copenhague, na Dinamarca, um dos autores do estudo. “Nos testes com resultados em escala (como melhora da hipertensão, por exemplo), a presença do efeito placebo era modesta e não podia ser diferenciada de um esforço do paciente para agradar o pesquisador.” Além disso, afirma ele, a maioria dos artigos publicados sobre o fenômeno não distingue os efeitos do placebo do curso natural de uma moléstia. Em geral, existe um período na doença em que o indivíduo parece melhorar. “Será que não se atribui erroneamente esse período de melhora ao efeito placebo?”, pergunta Hrobjartsson. Os pesquisadores não têm a resposta.

Falta muito para a ciência entender os mecanismos emocionais e fisiológicos que envolvem o desaparecimento de moléstias no organismo. “Há tratamentos em que não se produz efeito placebo. Em outros, quase 100% dos pacientes melhoram”, diz Irving Kirsch. Ao que tudo indica, há mais coisas entre a doença e a cura do que sonha a nossa biologia.

Texto reproduzido do site: super.abril.com.br

Efeito Placebo


Placebo

Por Juliana Pires
Graduação em Farmácia e Bioquímica (Uninove, 2010)

Em determinadas situações, ao fazer o uso de determinados fármacos acabam por surgir efeitos que não eram os esperados, ou seja, que não decorrem de sua ação farmacológica, ou ainda, esses efeitos podem vir de substâncias que nem sequer apresentam propriedades farmacológicas, sendo substâncias inertes. Esses efeitos são conhecidos como placebo, e com todo o avanço da medicina ainda permanecem como um mistério.

Placebo, do latim placere, significa “agradarei”, e segundo o dicionário médico Hooper, significa “um fármaco ou procedimento inerte (sem princípios ativos) que produz efeito benéfico ou maléfico à saúde de um indivíduo”. Desta forma, ao ingerir uma pílula contendo açúcar ou amido, por exemplo, a pessoa sentiria melhoras de determinada enfermidade, sendo atribuído a essas substâncias as propriedades de cura. O placebo também pode existir em outras formas, além de pílulas, como em cirurgias espirituais, certos tipos de terapias alternativas, como os florais e cristais, e até em fármacos que apresentam efeitos não decorrentes de sua ação.

Tem sua aplicação na indústria farmacêutica, para comprovar a efetividade de fármacos, em estudo conhecido como duplo-cego. Nesta situação, grupos de indivíduos são randomizados, onde um grupo receberá o medicamento em estudo e, o outro, o placebo. Espera-se que somente o grupo que recebeu o fármaco apresente os sintomas desejados, porém, uma porcentagem do grupo placebo tende a apresentar as mesmas respostas.

Esse efeito foi observado inicialmente no século XVIII, pelo médico Elisha Perkins (1796), que tratava seus pacientes com um aparelho composto por duas varetas de metal, que ele patenteou como “Tractor Perkins”, onde as agitava em torno do paciente para eliminar o fluído elétrico que acreditava lhes causar o mal. Os efeitos despertaram o interesse do médico John Haygarth, que fez uma réplica do aparelho, porém em madeira, e conseguiu provar em um estudo controlado que, embora os efeitos produzidos pelo “Tractor Perkins” fossem verdadeiros, os mesmos poderiam ser atingidos com a sua réplica. Desta forma, conseguiu demonstrar que o uso de procedimentos embora tidos como inertes na terapêutica, podem acarretar em resultados positivos aos pacientes.

Desta forma, essa questão gera muita discussão na comunidade médica, que vai além das comprovações científicas. Muitos acreditam que este efeito seja puramente psicológico, decorrente da crença no tratamento, porém, o percentual de efetividade desperta a curiosidade dos pesquisadores, que pode chegar de 20% a 100% de respostas positivas nos indivíduos que fazem seu uso. Como mencionado, não há uma explicação objetiva para o efeito placebo, porém existem algumas teorias:

Condicionamento clássico ou Pavloviano: através de uma resposta inconsciente, gradativamente há uma melhora nas condições fisiológicas do indivíduo, que passa a se adaptar com o uso da substância. Com isto, a pessoa que faz o uso da substância inerte várias vezes apresentará respostas cada vez maiores. Também, pessoas que recebem o tratamento inicial com um fármaco, e depois passam a receber o placebo, podem apresentar os mesmos efeitos, com o organismo respondendo da mesma forma.

Mecanismo consciente de duas partes: nesse sentido ocorre a expectativa de recompensa, onde a crença ativa a rede de recompensas no cérebro, motivando o paciente e refletindo na sua recuperação; e a modulação da ansiedade, onde o paciente ao ouvir do psicólogo, por exemplo, que a dor reduzirá, apresentará redução da ansiedade devido à libertação de neurotransmissores. Em ambos os casos, ao saber que estava fazendo o uso de um placebo, o tratamento perderá seu efeito.

Contudo, vale ressaltar que os estudos científicos são essenciais para a comprovação da eficácia farmacológica dos medicamentos, a fim de evitar o surgimento de fármacos ineficazes no mercado.

Referências bibliográficas:

O placebo e seus efeitos. Disponível em <http://www.boasaude.com.br/artigos-de-saude/3861/-1/o-placebo-e-seus-efeitos.html>.

O efeito placebo. Disponível em <https://psicologado.com/psicologia-geral/o-efeito-placebo>.

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Texto reproduzido do site: infoescola.com

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Entenda a diferença entre a doença de Alzheimer e a demência

Imagem ilustrativa postada pelo blog

Entenda a diferença entre a doença de Alzheimer e a demência

Explicitando o que você precisa saber sobre as condições cerebrais.

Colleen Travers (Especial para o HuffPost)

A demência pode denotar muitas condições distintas relacionadas ao cérebro e deve ser encarada mais como uma síndrome que como uma doença.

A demência pode denotar muitas condições distintas relacionadas ao cérebro e deve ser encarada mais como uma síndrome que como uma doença.

Ver uma pessoa que você ama, tipo seu pai, sua mãe, um avô ou uma avó, perder a memória, pode ser arrasador. Mas o simples fato de alguém começar a se esquecer ou se confundir de vez em quando não significa automaticamente que a pessoa esteja manifestando sinais do mal de Alzheimer.

Pode não ser nada, é claro. Ou então o declínio ou confusão cognitiva pode ser um sinal de demência, que não é a mesma coisa que Alzheimer, a despeito do que muitas pessoas talvez pensem. Embora existam sobreposições entre as duas coisas, há diferenças importantes entre elas que precisam ser notadas.

Seguem informações sobre as diferenças entre demência e mal de Alzheimer, para que você possa ajudar seus entes queridos – ou você mesmo – a ter acesso ao tratamento correto.

Demência é um termo inclusivo que abrange muitas condições – incluindo a doença de Alzheimer

Demência é um termo que pode ser aplicado a várias condições diferentes ligadas ao cérebro. Deve ser encarada mais como uma síndrome que como uma doença.

"Demência é uma perda cognitiva em qualquer momento da vida e abrange várias doenças", disse George Perry, cientista chefe do Consórcio de Saúde Cerebral da Universidade do Texas em San Antonio e editor-chefe do "Journal of Alzheimer's Disease". "A demência pode ocorrer em qualquer etapa da vida ... ou em função de um acidente que provoque lesão cerebral ou acidente vascular-cerebral."

Dentro desse grupo se inclui o mal de Alzheimer, responsável por mais de 50% dos diagnósticos de demência, segundo Elise Caccappolo, professora de neuropsicologia e diretora do Serviço de Neuropsicologia do Centro Médico da Universidade Columbia. E, embora seja complicado assinalar as causas do Alzheimer (falaremos mais sobre isso mais adiante), a idade pode ser um fator importante.

"Mais de 60% da perda cognitiva relacionada à idade se deve à doença de Alzheimer", disse Perry.

A maioria das pessoas não sabe ao certo se tem Alzheimer.

O que torna o Alzheimer uma doença difícil de diagnosticar é o fato de que a condição só é confirmada com uma autópsia.

"Podemos diagnosticá-la quando a pessoa está viva, mas nunca teremos certeza absoluta até depois da morte, quando, mediante autópsia, é possível procurar alterações patológicas específicas no cérebro que permitem determinar que ela morreu de Alzheimer", disse Caccappolo.

"Os grandes centros médicos têm condições bastante boas de fazer esse diagnóstico, mas em outras partes do país, ou quando um paciente é atendido por um neurologista geral, o termo 'Alzheimer' às vezes é empregado de modo muito corriqueiro. Se a pessoa não tem Alzheimer, a medicação não vai ajudá-la e ela pode acabar ficando sem outros tratamentos que poderiam ser úteis."

Um dos indícios mais fortes de que uma pessoa pode ter Alzheimer é a clássica perda de memória de curto prazo. Isso ocorre, disse Caccappolo, porque o Alzheimer se manifesta na área do cérebro responsável por aprender informações novas e criar memórias novas. Isso explica por que uma pessoa com Alzheimer provavelmente consegue se lembrar do que comeu no restaurante em que saiu com seu hoje marido ou mulher pela primeira vez, 50 anos atrás, mas tem dificuldade em se lembrar onde deixou seus óculos (ou mesmo se lembrar de que hoje precisa de óculos).

Outros tipos de demência geralmente se desenvolvem de maneira diferente do mal de Alzheimer

Ao lado do Alzheimer há três outros tipos de demência que, segundo Caccappolo e Perry, são as mais comuns. Elas incluem a demência vascular, que ocorre quando uma pessoa sofre um AVC ou diabetes que provocam falta de oxigênio no cérebro; a demência frontotemporal, uma condição que tipicamente afeta pessoas com a partir de 60 anos, quando uma proteína semelhante à de Alzheimer leva à perda de neurônios cerebrais; e a demência com corpos de Lewy, em que depósitos proteicos se formam nas áreas do cérebro responsável pelas memórias e as habilidades motoras.

Todas essas doenças têm sintomas diferentes, mas todas podem provocar instâncias de alterações repentinas de humor, transformação de personalidade e um declínio marcante nas habilidades cognitivas e motoras. Muitas coisas, desde absorver informações até vestir-se pela manhã, passam a levar mais tempo e a dar mais trabalho. Perry acrescentou que em casos graves, como a demência com corpos de Lewy, os pacientes podem chegar a sofrer alucinações.

Fatores de risco de demência e mal de Alzheimer

Um aspecto um pouco perturbador tanto da demência quanto do Alzheimer é que não existe nenhum indicativo real de quem é mais suscetível que outras pessoas a desenvolver uma doença ligada à demência.

"A maioria dessas doenças é esporádica, não tem causa genética evidente", disse Perry. Algumas pessoas podem ter uma herança genética – esses casos geralmente envolvem a versão precoce da doença --, mas o simples fato de alguém de sua família ter tido Alzheimer não significa que você também terá.

"Se sua avó teve Alzheimer com 40 e poucos anos, então você teria razão para se preocupar mais e fazer um exame genético. Mas se ela tiver tido Alzheimer com mais de 65 anos, você talvez tenha um risco aumentado, mas ainda assim é realmente pequeno", disse o pesquisador.

Já se discutiu a possibilidade de o consumo de álcool causar qualquer tipo de demência, inclusive Alzheimer, mas, para Caccappolo, não há razão para crer que isso seja fato.

"Não é frequente diagnosticarmos demência devida ao consumo de álcool, e essa não é uma causa conhecida. O alcoolismo agrava outras condições, mas é raro as pessoas desenvolverem demência apenas devido ao abuso de álcool", ela disse.

Para Perry, porém, fatores comportamentais podem exercer um papel grande. Hábitos saudáveis, incluindo uma alimentação correta e exercício físico adequado, são cruciais para tratar e para reduzir nosso risco de desenvolver Alzheimer e outras demências.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

Texto reproduzido do site: huffpostbrasil.com

domingo, 30 de setembro de 2018

A importância de desfrutar de duas horas de silêncio por dia


Publicado originalmente no site Brasil El País, em 19 de setembro de 2016

“Quer calar a boca?”: a importância de desfrutar de duas horas de silêncio por dia

Nem a melhor canção do mundo iguala o poder da quietude, que traz benefícios ao coração e ao cérebro

Por Ana G. Moreno 

Situada a menos de um quilômetro da Quinta Avenida, em Nova York, a taberna Burp Castle tem um cartaz que diz: “Proibido gritar. Apenas sussurros”. O nível das conversas no local não ultrapassa os 39 decibéis (como um bom aparelho de ar condicionado). No outro extremo do mundo, um especialista na cerimônia do chá da Escola Urasenke, em Kyoto (Japão), se entrega ao ritual em total silêncio: “Ninguém fala, ninguém domina”. E no meio da floresta finlandesa, a jornalista espanhola Marta Caparrós, que ganhou uma bolsa para lá escrever seu segundo romance, está prestes a fazer algo inédito em sua vida anterior em Madri: sair para passear por um momento sem colocar os fones de ouvido.

O silêncio pode parecer um capricho inalcançável. Numa sociedade de debatedores de televisão gritões, na qual se compete para encher as casas de telas e a timidez é injustamente associada a temperamentos fracos e pusilânimes, abaixar o volume não está na moda. E pagamos uma conta muito alta por isso. “A poluição sonora está relacionada com surdez, problemas de sono, doenças cardiovasculares e distúrbios digestivos. Sabe-se também que os jovens que vivem num ambiente ruidoso têm sua capacidade de memória e de aprendizagem alterada”, afirma Pablo Irimia, neurologista e membro da Sociedade Espanhola de Neurologia (SEN).
  
A OMS publicou um relatório em 2011 que revelou que 3.000 das mortes ocorridas naquele ano na Europa Ocidental por doença cardíaca tinham relação com o ruído excessivo. Na Espanha, 22% da população está em situação de risco por causa da carga de decibéis (acima de 65 é considerado perigoso), de acordo com a organização. Já em 1859, a enfermeira britânica Florence Nightingale escreveu o seguinte em um documento recompilado pelo historiador Hillel Schwartz em seu livro Making Noise: From Babel to the Big Bang & Beyond [Fazendo Barulho: de Babel ao Big Bang & Mais Além]: “O ruído desnecessário é a ausência mais cruel de cuidado que se pode infligir a uma pessoa. O ruído repentino é inclusive uma causa de morte entre os pacientes crianças”.

Mas o silêncio tem algum efeito positivo sobre o organismo, além de garantir a ausência de furadeiras e motores? O médico e pesquisador Luciano Bernardi foi um dos primeiros a responder afirmativamente a essa questão, com um estudo publicado na revista Heart. “Estávamos investigando os efeitos de diferentes tipos de música nos sistemas cardiovascular e respiratório e introduzimos pausas de dois minutos entre os trechos das canções. Então vimos que os indicadores de relaxamento humano disparavam durante esses episódios, muito mais do que com qualquer música ou durante o silêncio anterior ao início da experiência”. O efeito positivo do silêncio, por conseguinte, funciona por contraste.

Ruído ruim, silêncio bom?

Segundo o pesquisador e neurologista Michael Wehr, da Universidade de Oregon, nossos neurônios se acendem durante a quietude, de modo que o cérebro a está reconhecendo, “não o vive como uma ausência de inputs”. Na mesma linha raciocina a cardiologista e neurologista Imke Kirste em seu trabalho Is Silence Golden? [O Silêncio É de Ouro?], publicado em 2013 na revista Brain Structure and Function. A pesquisa, realizada somente com camundongos, mostrou que o silêncio, em maior nível do que qualquer melodia, provoca neurogênese (nascimento de novos neurônios). Se sua diminuição no hipocampo leva à doença de Alzheimer, como apontam muitos especialistas, o silêncio e o retiro poderiam ser uma maneira de tratar a doença.

O neurologista Pablo Irimia aconselha, no entanto, muita prudência a esse respeito (“a partir da adolescência, a neurogênese é tão limitada que tem pouco valor”), mas aponta duas evidências indiscutíveis: o silêncio facilita o controle da pressão arterial (reduz o risco cardiovascular, prevenindo, assim, doenças cardíacas e acidentes vasculares cerebrais) e predispõe aos benefícios de uma vida reflexiva. “O pensamento profundo e meditado gera novas conexões entre os neurônios. Ou seja, uma vida intelectual ativa, que exige concentração e, portanto, silêncio, desempenha um papel protetor em distúrbios neuronais. Por exemplo, sabemos que um alto nível de escolaridade está associado a um menor risco de sofrer da doença de Alzheimer”, diz o neurologista, que aconselha uma rotina pouco barulhenta e pontuada por momentos de silêncio.

“Não é preciso se isolar completamente. Basta viver uma vida normal, com especial atenção para a calma. Na verdade, nenhum cérebro humano aguenta o silêncio total. Existem câmaras anecóicas que reproduzem, no ambiente médico, o que há de mais parecido ao silêncio absoluto, e ninguém consegue ficar mais de 40 minutos dentro delas, porque o cérebro está sempre à procura estímulos e se não os encontra fora, amplia o ruído do coração, dos intestinos”, continua o cientista.

Viagem ao país onde ninguém grita

Silêncio é ler, pensar com frequência, não se deixar levar, parar caso necessário. Mas o silêncio também é ouvir (quando se faz para aprender) e colocar na linha de fogo a reflexão silenciosa. “O zen vai por aí. Sentir essa calma em todo o seu corpo e experimentá-la a cada dia”, ilustra o monge Roshi Gensho Hozumi, do templo Tekishinjuku (Japão), no documentário In Pursuit of Silence [Na Busca do Silêncio] (Patrick Shen, 2015). O filme como o estudante norte-americano Greg Hindy cruza os EUA em voto de silêncio, de Nashua a Los Angeles, sobressaltado pelo ritmo demoníaco que os avanços tecnológicos impunham a ele e procurando se conectar “com uma realidade emudecida”.

O apito constante de um grupo do WhatsApp não é, por acaso, um ruído? Depende. “O som é um fenômeno físico que atinge o ouvido. Este o envia para o cérebro e o identifica. Quando se torna ruído? Quando se intromete naquilo que estou tentando fazer e assume a forma de som desagradável não desejado”, responde a doutora Arline Bronzaft, psicóloga ambiental, no documentário norte-americano. Agora, seja sincero: o seu celular emite ruídos ou sons?

Das nossas decisões cotidianas dependerá que nos encharquemos, ou não, do poder do silêncio. Gestos como apoiar os avanços no noise (sim, existem pessoas pesquisando em secadores de cabelo sigilosos), desligar o smartphone ou escolher onde passar as férias podem ser cruciais. E países como a Finlândia reivindicam seu espaço nessa tarefa. Em 2010, um punhado de especialistas em marketing se reuniu num restaurante em Helsinque para pensar como tornar atraente para os visitantes um país médio e remoto, eclipsado pela vanguarda de vizinhos como a Suécia ou pela grandeza histórica da Rússia. E descobriram um elemento que até então ninguém tinha ousado vender como recurso natural: o silêncio.

O pensamento profundo e meditado gera novas conexões neuronais. Sabe-se que uma vida intelectual ativa, que exige concentração e, portanto, silêncio, desempenha um papel protetor em relação ao Alzheimer. Não é preciso se isolar completamente. Na verdade, nenhum cérebro humano aguenta o silêncio absoluto. (Pablo Irimia, neurologista e membro da SEN)

Nem a exuberância de suas florestas, a escuridão hipnótica dos seus lagos, as pequenas saunas que salpicam suas encostas (abertas ao público... sem nada de roupa, isso sim), o design funcional de suas acolhedoras casas ou o cheiro de peixe fresco na Praça do Mercado de Helsinque podem competir com a atração de um país calado, tímido, pensativo, que não por isso é hostil, mas muito pelo contrário. Noora Vikman, etnomusicóloga da Universidade da Finlândia, que assessorou o Instituto de Turismo em sua campanha sobre o silêncio, conta por e-mail desde um retiro silencioso na região da Lapônia: “Vir para a Finlândia é descobrir pensamentos e sentimentos que não são audíveis numa vida agitada. Se você quiser conhecer a si mesmo você tem de estar consigo mesmo, discutir com você mesmo, ser capaz de falar com si mesmo”.

Além disso, em seus arquipélagos quase desertos (sua população é semelhante à da Comunidade de Madrid, cerca de 6,4 milhões de pessoas, mas espalhadas numa área 42 vezes maior), com bicicletas destroçadas encostadas na porta e poucos bares (ou nenhum) nos arredores, a Finlândia abraça o silêncio no próprio centro da capital, um enclave movimentado de lojas, com um palco para música ao vivo, onde tocam grupos de rock incapazes de atravessar com suas guitarras um edifício próximo, a Capela do Silêncio, um templo não religioso com isolamento acústico, onde se pode prestar homenagem à ausência de palavras. Depois você pode sair para ouvir os acordes do Iron Maiden, pois duas horas de silêncio por dia é a recomendação do professor Michael Wehr para um hipocampo satisfeito. Na Finlândia, você atingirá essa marca com folga.

Outros lugares com nível de ruído baixo, de acordo com o guia de viagem Lonely Planet, são o mosteiro Kartause Ittingen (Suíça), a ilha de Iona (Escócia) ou o parque de Kielder Forest (Reino Unido). Mas lembre-se de que, talvez pela primeira vez, cientistas e místicos concordam: o silêncio é, principalmente, uma atitude. Portanto, convém exercê-la com inteligência. Como escreveu o poeta e ativista americano Paul Goodman, nem todas as suas formas acrescentam. “Se existe o silêncio fértil da consciência, daquele que ouve e compreende quem lhe fala ou o da viva percepção alerta, também existe um tolo e apático, e outro de cheio de censura e ressentimento que vocifera sem palavras e não se atreve a abrir a boca”. Fique longe deles.

Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com

“É difícil recuperar os neurônios da memória..."

May-Britt Moser, Prêmio Nobel de Medicina em 2014, na quarta-feira em Madri.
Foto: Carlos Rosillo 

Publicado originalmente no site El País Brasil, em 28 SET 2018

“É difícil recuperar os neurônios da memória; é melhor evitar que eles morram”

Cientista norueguesa foi uma das descobridoras do ‘GPS’ com o qual nosso cérebro se orienta

Por Emilio de Benito 

“Meu GPS cerebral está em apuros hoje”, ri a cientista norueguesa May-Britt Moser (Fosnavåg, 1963), comentando a jornada cheia de encontros e deslocamentos que a Fundação AstraZeneca organizou para ela em Madri – e na qual se inclui esta entrevista. A referência aos sistemas de navegação e localização é uma piada autorreferente: Moser, Edvard Moser (seu então marido) e o norte-americano John O’Keefe partilharam em 2014 o prêmio Nobel de Medicina por seus trabalhos com as células cerebrais que servem para a nossa orientação.

Os trabalhos premiados são de 12 anos atrás, mas a pesquisadora continua atuando no mesmo campo. Com um acréscimo: “Encontramos, em uma área irmã do cérebro, as células que determinam como se percebe o tempo, por que às vezes ele passa voando, e às vezes parece eterno”, explica.

Ela salienta que seu laboratório se dedica à ciência básica, a qual, se tudo correr bem, acabará chegando a um uso clínico. Mas, embora esse não seja seu objetivo primordial, não se furta a especular sobre a utilidade de suas descobertas. “Estudamos uma área muito importante para a navegação espacial do hipocampo”, a zona do cérebro onde ela encontrou os neurônios relacionados com a localização e o tempo. É uma região “fundamental no ser humano, e, quando estas células morrem, perdem-se funções”.

A médica não acredita que aspectos tão básicos para o indivíduo possam ser facilmente recuperados. A realidade nos hospitais de meio mundo confirma isso. Quando uma pessoa tem Alzheimer, por exemplo, não há, ao menos por enquanto, uma maneira de que volte a recordar o que esqueceu. Por isso “é difícil recuperar os neurônios da memória; é melhor evitar que morram”, afirma. Não acredita que a plasticidade do cérebro, sua capacidade de substituir um circuito perdido por outro, seja de grande utilidade quando funções tão básicas se deterioram. “Se não soubermos por que morrem, não podemos agir”, conclui.

Encontramos, em uma área irmã do cérebro, as células que determinam como se percebe o tempo, por que às vezes ele passa voando, e às vezes parece eterno

Apesar do cansaço, Moser comenta sua visita com entusiasmo, especialmente os diversos encontros com jovens. “Minha mensagem é que é preciso trabalhar para explicar como o cérebro elabora as lembranças episódicas [de um fato concreto]. Por que, como e quando essas memórias são recuperadas.” Embora às vezes receba comentários muito desconcertantes nesses encontros. “Como esses jovens que chegaram até mim esta manhã e me disseram: ‘Puxa, então você é um ser humano’”, conta, rindo. Mas acha isso bom. “Se me virem como um ser humano, sabem que eles também podem chegar a fazer o que amam.”

No caso dessa cientista (as mulheres são apenas 5% dos ganhadores do Nobel), o prêmio não mudou muito a sua vida. Houve ofertas – “e pressões”, admite – para que deixasse o laboratório de Trondheim, no meio da Noruega, onde trabalha. Também a solicitam muito para que vá a eventos – “mas nunca faço algo que não queira”. “Certamente me chamam mais que ao meu ex-marido, talvez porque eu seja mulher”, diz, “e isso que ele é mais amável”.

Imagina-se no mesmo lugar, pesquisando, pelos próximos 10 anos. Trabalhando e levando seu cachorro para passear. Apesar de suas duas filhas, já adultas, terem saído de casa, não se sente sozinha. “Quando você tem um cachorro, não há espaço para hobbies. Saio com ele pelo menos duas vezes por dia, e lhe dedico muito tempo.” O frio não a impede de sair à rua com seu animal. “Na Noruega dizemos que não há tempo tuim, o que há é roupa ruim. Eu me abrigo, e o cachorro, também.”

Texto e imagem reproduzidos do site: brasil.elpais.com/brasil

sexta-feira, 27 de julho de 2018

4 formas de usar a ansiedade a seu favor

Quatro maneiras de aproveitar o sentimento moderado
de ansiedade e fazê-lo trabalhar para você 
Foto: Pixabay

Publicado originalmente no site da revista Época Negócios, em 23/07/2018

4 formas de usar a ansiedade a seu favor

Sentimento, em níveis moderados, pode melhorar o seu desempenho

Por Época Negócios Online 

Cuidar da saúde mental é um desafio diário no mundo moderno. No Brasil, a dificuldade parece ser ainda maior, uma vez que o país tem a maior taxa de pessoas com transtornos de ansiedade do mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). A palavra "ansiedade" representa, para muitas pessoas, uma condição extremamente debilitante que afeta diretamente a capacidade de ação. No entanto, existem quadros nos quais a ansiedade simboliza uma sensação que pode ser aproveitada para melhorar o desempenho do indivíduo, conforme explicou a psicóloga clínica Alicia H. Clark, autora do livro Hack Your Anxiety, ao site Fast Company.

Caso a ansiedade seja uma condição que influencia negativamente o seu dia a dia, a orientação é procurar ajuda de um profissional de saúde mental. Porém, se o sentimento é moderado, existem algumas formas de utilizá-lo a seu favor e trazer resultados positivos para você, segundo Clark.

Quando a ansiedade faz você se sentir desconfortável, é preciso explorar a origem desse sentimento, explica Clark. Investigue o medo e o nervosismo e procure entender os motivos responsáveis por essa sensação. A partir do momento que você nomear esse sentimento, você poderá começar a lidar com ele e mudar o seu pensamento. Se você tem uma apresentação importante no trabalho e isso é a causa da sua ansiedade, por exemplo, pense nos motivos que fazem você se sentir dessa forma. Segundo a psicóloga, muitas razões são válidas para esse sentimento, mas cada uma delas requer um tratamento diferente.

Enfrente

A ansiedade pode ser interpretada como um alerta sobre uma situação ou um risco, conforme explicou a terapeuta Lauren Appio, fundadora do Appio Psychological Consulting, à Fast Company. Muitas vezes, isso é o que motiva as pessoas a procurar uma terapia — para que elas possam ficar mais atentas a esses sinais. Sendo assim, pense nos sinais de alerta que a sua ansiedade emite para você e utilize esse autoconhecimento para saber lidar com a situação da melhor forma.

Espaireça

Se a sensação de ansiedade for esmagadora para você, o ideal é fazer uma pausa. Esse intervalo dedicado a você vai depender da situação em que você estiver. Caso você esteja prestes a fazer um discurso ou apresentação, exercícios de respiração profunda podem ajudar. Se possível, passeios ou atividades não relacionadas ao trabalho também servem como uma válvula de escape importante, assim como sessões de meditação.

Repense

A partir do momento que você conseguir identificar os motivos que te levam à ansiedade, você conseguirá pensar neles de uma forma diferente. Trata-se de uma espécie de "reformulação". Segundo Clark, a ansiedade em níveis moderados pode aguçar o foco e melhorar o desempenho. Dessa forma, ao invés de sentir medo em relação ao desafio que você vai enfrentar, você pode dar mais atenção à oportunidade que pode surgir dessa situação, pensando nos aspectos positivos.

Texto e imagem reproduzidos do site: epocanegocios.globo.com

domingo, 9 de julho de 2017

Depressão: Fique alerta com as principais causas



Publicado originalmente no site Sou de Sergipe, em 8 de julho de 2017.

Depressão: Fique alerta com as principais causas.

Entenda como evitar esse mal identificando predisposições à doença.

Por Izaque Vieira.

A depressão é um problema que não tem hora nem lugar para aparecer. Pode aparecer em qualquer pessoa independente do sexo, idade, condição social ou econômica.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que até 2030 a depressão será a doença mais comum do mundo, afetando mais pessoas do que qualquer outro problema de saúde, incluindo câncer e doenças cardíacas.

Porém, apesar disso, a ciência mostra que alguns fatores podem facilitar o aparecimento dessa patologia.

Veja abaixo os gatilhos mais comuns da depressão e saiba como evita-los ou trata-los para fugir dessa doença maléfica.

Neurotransmissores alterados

Pessoas com taxas muito alteradas de determinados neurotransmissores, como serotonina e noradrenalina, tem mais chances de sofrer depressão. Segundo o psiquiatra do Hospital Santa Cruz Edson Hirata, isso acontece justamente por que a doença se desenvolve por conta da falta desses neurotransmissores, que são responsáveis pela comunicação entre os neurônios na área do cérebro responsável pelas emoções – o sistema límbico.

Quando uma pessoa nasce com esses neurotransmissores naturalmente baixos, o sistema límbico e sua percepção das emoções ficam comprometidos, podendo causar a depressão.

Genética

Os especialistas afirmam que a genética tem forte influência no desenvolvimento da depressão. Estudos mostram que se um dos pais tem depressão o risco do filho sofrer dessa doença é três vezes maior. Se ambos os pais tem depressão, o risco do filho desenvolver depressão é de 75%.

As Mulheres sofrem mais

Por conta da instabilidade hormonal a que estão sujeitas, as mulheres têm o dobro de chance de vir a desenvolver o distúrbio. Além disso, as mulheres estão mais sujeitas à ocorrência de eventos estressantes, como o parto.

Atenção aos idosos

Estudos comprovam que a incidência da doença é maior entre a população idosa. De acordo com os psiquiatras, o fato de idosos terem mais doenças físicas, usarem mais medicamentos e frequentemente ficarem mais isolados socialmente aumenta o risco de depressão nesta faixa etária.

Por isso, fique atento aos seus parentes com idade mais avançada, principalmente àqueles que moram sozinhos. A atenção a esse público é de fundamental importancia.

Traumas

Situações traumatizantes como sequestros, abuso sexual e violência são pontos chave para o surgimento da depressão, principalmente em pessoas que tenham antecedentes familiares da doença.

Pesquisas recentes mostraram que crianças vítimas de violência e abuso sexual têm risco aumentado de desenvolver depressão quando se tornam adultas, porém, vale lembrar que esse tipo de evento pode acontecer em qualquer momento da vida. Por isso é importante o acompanhamento médico na fase pós-traumática, a fim de que ele oriente a vítima e evite o desenvolvimento dessa patologia.

Eventos estressantes

Bom ou ruim, qualquer tipo de evento estressante, pode desencadear depressão. Desde muita pressão no trabalho, até organizar um casamento, passando por problemas familiares, estresse com os estudos, divórcios e gravidez. Lembrando que nesses casos a incidência também é maior em pessoas que tenham parentes próximos com depressão.

Medicamentos e seus efeitos colaterais

De acordo com especialistas no assunto inúmeros medicamentos podem levar a depressão, merecendo destaque os medicamentos para emagrecer como anfepramona, fenproporex e os derivados de anfetamina.

Abuso de álcool e outras drogas

Drogas levam a uma sensação de euforia por conta descarga de neurotransmissores como dopamina, serotonina e noradrenalina. O consumo de álcool e outras drogas como cocaína, lança perfume são importantes gatilhos para depressão.
Após algumas horas, quando o efeito das drogas diminui, nosso organismo sofre uma queda brusca dessas substâncias, o que explica porque a pessoa sente uma profunda tristeza após o uso de drogas.

Izaque Vieira/Redação Portal Sou de Sergipe.

Texto e imagem reproduzido do site: soudesergipe.com.br

sábado, 17 de junho de 2017

A última longa entrevista de Sigmund Freud


A última longa entrevista de Sigmund Freud

Por Carlos Willian Leite.

Sigmund Freud (1856-1939), o judeu austríaco fundador da psicanálise, formou-se em medicina em Viena. Aperfeiçoou seus estudos em Paris, com Jean-Marie Charcot, que usava a hipnose como tratamento para a histeria. Ao romper com Charcot e com a prática da hipnose, Freud se deparou com o mecanismo de defesa dos pacientes e pode então desenvolver a teoria do inconsciente e sua própria técnica terapêutica, baseada na livre associação de ideias. Para o médico austríaco, a neurose adulta era resultado da sexualidade infantil. Em 1900, Freud publicou “A Interpretação dos Sonhos”, seu primeiro trabalho revolucionário — obra que ele havia terminado anos antes mas que guardou para lançá-la no despertar de um novo século. Ele tinha razão ao adiá-lo: o século 20 foi o tempo de Sigmund Freud. Em 1938, quando os nazistas anexaram a Áustria, depois de terem banido a psicanálise da Alemanha, Freud imigrou para a Inglaterra em companhia de sua Anna, que se tornaria conhecida como psicóloga infantil. Freud morreu de câncer na garganta.

Entrevista conduzida por George Sylvester Viereck, publicada no seu livro: “Glimpses of the Great”, publicado em 1930, e republicada no livro: “A Arte da Entrevista: Uma Antologia de 1823 aos Nossos Dias,” organizado por Fábio Altman (Scritta 1995).

“Setenta anos de idade me ensinaram a aceitar a vida com alegre humildade.”

Quem fazia essa declaração era o professor Sigmund Freud, o grande explorador austríaco do lado oculto da alma. Assim como o trágico herói grego Édipo, cujo nome está tão intimamente ligado aos princípios fundamentais da psicanálise, Freud confrontou a Esfinge sem receio. Como Édipo, ele decifrou o enigma. Pelo menos, nenhum mortal chegou tão perto dos segredos do comportamento humano quanto Freud.

Freud é para a psicologia o que Galileu foi para a astronomia. É o Cristóvão Colombo do inconsciente. Ele abre novas perspectivas, sonda novas profundezas. Freud alterou todas as relações na vida, decifrando o sentido oculto das regras do inconsciente. Conversamos na casa de veraneio de Freud em Semmering, uma montanha nos Alpes Austríacos, onde os vienenses elegantes adoram se reunir. A última vez que vira o pai da psicanálise, ele estava em sua casa simples na capital austríaca. Os poucos anos que separavam a minha última visita desta de agora multiplicaram as rugas na sua testa e aumentaram a sua palidez acadêmica. Seu rosto estava abatido, sofrido. A mente estava ativa, o espírito firme, a cortesia impecável como sempre, mas uma leve problema de fala me preocupou.

Parece que uma doença maligna no maxilar superior necessitara de uma operação. Desde então, Freud usa um aparelho mecânico para facilitar a fala. Na verdade, não há diferença entre o uso desse aparelho ou de óculos. Ele deixa Freud mais constrangido do que os visitantes. Depois que conversamos com ele por algum tempo, o aparelho se torna quase imperceptível. Nos dias em que Freud está bem, nem se percebe a presença dele. Mas para Freud, ele é causa de constante irritação.

Sigmund Freud — Eu detesto o meu maxilar mecânico porque a luta com o mecanismo consome uma força preciosa. Mas é melhor ter um maxilar mecânico do que nenhum. Ainda prefiro viver a morrer. Talvez os deuses sejam generosos conosco, tornando a vida mais desagradável à medida em que envelhecemos. No final, a morte parece mais tolerável do que os muitos problemas que temos que enfrentar.

(Freud se recusa a admitir que o destino tenha sido rancoroso com ele.)

Sigmund Freud — Por que, eu devia esperar por algum tipo de privilégio? A idade, com seus visíveis desconfortos, chega para todos. Ela atinge um homem aqui, outro lá. O seu golpe sempre atinge uma parte vital.

Sigmund Freud — Não me revolto contra a ordem universal, afinal vivi mais de setenta anos. Eu tive o que comer. Desfrutei de muitas coisas — do companheirismo da minha esposa, dos meus filhos, do pôr-do-sol. Eu vi as plantas crescerem na primavera. Algumas vezes recebi um aperto de mão amigo. Uma ou duas vezes encontrei um ser humano que quase me entendeu. O que mais eu posso querer?

George Sylvester Viereck — O senhor é famoso. O seu trabalho influencia a literatura de todo o mundo. O homem olha para si e para a vida com olhos diferentes por sua causa. E, há pouco tempo, quando o senhor fez 70 anos, o mundo se uniu para homenageá-lo — com exceção da sua própria universidade!

Sigmund Freud — Se a Universidade de Viena me aceitasse, eu teria me sentido muito constrangido. Não há razão para eles me aceitarem ou à minha doutrina porque eu estou com 70 anos. Não dou nenhuma importância ilógica aos números. A fama só chega quando já estamos mortos, e, para ser franco, o que acontece depois da morte não me interessa. Não aspiro à glória póstuma. A minha modéstia não é nenhuma virtude.

George Sylvester Viereck — O fato do seu nome ser lembrado não significa nada para o senhor?

Sigmund Freud — Absolutamente nada, mesmo que ele seja realmente lembrado, o que não é certo. Eu estou mais interessado no destino dos meus filhos. Espero que a vida deles não seja tão difícil. Não posso torná-las muito mais fácil. A guerra praticamente acabou com a minha modesta fortuna, as economias de uma vida inteira. Entretanto, felizmente, a idade não pesa tanto para mim. Eu ainda sou capaz de seguir em frente! Meu trabalho ainda me dá prazer.
Sigmund Freud — Estou muito mais interessado nestas flores do que no que possa acontecer comigo depois que eu morrer.

George Sylvester Viereck — Então, no fundo, o senhor é um pessimista?

Sigmund Freud — Não, não sou. Só que eu não permito que nenhuma reflexão filosófica me tire a alegria das coisas simples da vida.

George Sylvester Viereck — O senhor acredita na continuidade do ser após a morte, seja lá de que maneira for?

Sigmund Freud — Eu não penso nesse assunto. Tudo o que nasce, um dia morre. Por que então eu também não morreria?

George Sylvester Viereck — O senhor gostaria de retornar à vida, assumindo uma nova forma? Em outras palavras, o senhor não gostaria de ser imortal?

Sigmund Freud — Para ser franco, não. Quem identifica as razões egoístas que se escondem sob o comportamento humano não tem a menor vontade de voltar. A vida, movendo-se em círculos, ainda seria a mesma. Além disso, mesmo que o eterno retorno de todas as coisas, como disse Nietzsche, nos vestisse com novas roupas, que utilidade isso poderia ter sem a memória? Não haveria ligação entre o passado e o futuro. No que me diz respeito, estou muito satisfeito em saber que o eterno absurdo de viver terminará um dia. Nossa vida se resume a uma série de obrigações, uma luta sem fim entre o ego e o seu ambiente. O desejo de um prolongamento excessivo da vida me parece absurdo.

George Sylvester Viereck — O senhor não aprova as tentativas do seu colega Steinach de prolongar o ciclo da existência humana?

Sigmund Freud — Steinach não faz nenhuma tentativa para prolongar a vida. Ele simplesmente luta contra a velhice. Ao aumentar a reserva de forças que temos dentro de nós, ele ajuda o corpo a resistir à doença. A operação de Steinach às vezes detém os acidentes biológicos, como o câncer, nos seus primeiros estágios. Ela toma a vida mais tolerável. Mas não a torna mais feliz. Não há razão para que o homem queira viver mais. Mas temos todas as razões para querer viver com o mínimo de desconforto possível. Sou bastante feliz, porque não sinto dores e sou grato aos pequenos prazeres da vida, aos meus filhos e às minhas flores!

George Sylvester Viereck — Bernard Shaw diz que vivemos muito pouco. Ele acha que, se quiser, o homem pode prolongar o tempo de vida humana, se a força de vontade suplantar as forças da evolução. A humanidade, segundo ele, pode recuperar a longevidade dos patriarcas.

Sigmund Freud — É possível que a morte em si não seja uma necessidade biológica. Talvez os homens morram porque queiram morrer. Assim como o amor e o ódio pela mesma pessoa coexistem dentro de nós, a vida é uma mistura do desejo de viver com o desejo ambivalente de morrer. Da mesma forma que um elástico tende a voltar ao seu formato original, toda matéria viva, consciente ou inconscientemente, anseia pela inércia completa e absoluta da existência inorgânica. Os desejos de morrer e de viver convivem lado a lado dentro de nós. A Morte é a companheira do Amor. Juntos, eles governam o mundo. Essa é a mensagem do meu livro, Além do princípio do prazer. No início, a psicanálise achava que o Amor era o sentimento mais importante. Hoje, sabemos que a Morte tem a mesma importância. Biologicamente, todo ser humano, não importando a intensidade do seu desejo de viver, anseia pelo Nirvana, pela fim da febre chamada vida, pelo seio de Abraão. O desejo pode ser disfarçado por rodeios. Entretanto o objetivo final da vida é a própria extinção!

George Sylvester Viereck — Essa, exclamei, é a filosofia da autodestruição. Ela justifica o automassacre. Levaria à conclusão lógica do suicídio mundial previsto por Eduard von Hartmann.

Sigmund Freud — A humanidade não escolhe o suicídio, porque as leis da sua natureza não aceitam o caminho direto para a própria meta. A vida deve completar o seu ciclo de existência. Em qualquer ser humano normal, o desejo de viver é o bastante para compensar o desejo de morrer, embora, no final, o desejo de morrer prove ser mais forte. Nós podemos considerar a ideia de que a morte nos chega por vontade própria. É possível que derrotássemos a morte, não fosse pelo aliado que ela tem dentro de nós mesmos. Nesse sentido, talvez seja certo dizer que toda morte é um suicídio disfarçado.

George Sylvester Viereck — Em que o senhor está trabalhando?

Sigmund Freud — Estou escrevendo uma defesa da análise leiga, a psicanálise praticada por leigos. Os médicos querem tornar ilegal a análise feita pelos que não são médicos registrados. A história, essa velha plagiadora, se repete a cada nova descoberta. Os médicos, a princípio, combatem qualquer nova verdade. Depois eles tentam monopolizá-la.
George Sylvester Viereck — O senhor teve um grande apoio dos leigos?

Sigmund Freud — Alguns dos meus melhores alunos são leigos.

George Sylvester Viereck — O senhor pratica a psicanálise com muita frequência?

Sigmund Freud — Claro. Nesse exato momento, eu estou trabalhando em um caso difícil, esclarecendo os conflitos psíquicos de mais um paciente interessante. Minha filha também é uma psicanalista, como o senhor pode ver…

(Nesse momento, a senhorita Anua Freud surgiu seguida por seu paciente, um rapaz de 11 anos, de feições obviamente anglo-saxônicas. O menino parecia muito feliz, esquecido do conflito da própria personalidade.)

George Sylvester Viereck — O senhor se autoanalisa?

Sigmund Freud — É claro. O psicanalista deve se autoanalisar com frequência. Ao nos analisarmos, nos tornamos mais capazes de analisar outras pessoas. O psicanalista é como o bode expiatório dos hebreus. As pessoas colocam a culpa dos seus pecados nele. Ele deve exercer a sua arte com perfeição para se livrar do peso colocado sobre ele.
George Sylvester Viereck — Sempre me pareceu que a psicanálise desperta em todos aqueles que a praticam o espírito da caridade cristã. Não há nada na vida humana que a psicanálise não nos permita entender.

Sigmund Freud — Pelo contrário — (enfureceu-se Freud, as feições assumindo a severidade arrebatada de um profeta hebreu) — entender não é perdoar. A psicanálise não apenas nos ensina o que temos que suportar, ela também ensina o que temos que evitar. Ela nos diz o que deve ser eliminado. A tolerância do mal não é, de maneira nenhuma, uma consequência do conhecimento.
(De repente eu entendi por que Freud brigara tão seriamente com os seguidores que o abandonaram, por que ele não consegue perdoar aqueles que se afastaram do caminho da psicanálise ortodoxa. O seu senso de integridade é uma herança dos seus ancestrais. Uma herança da qual ele se orgulha, assim como se orgulha da própria raça.)

Sigmund Freud — Minha língua é o alemão. Minha cultura, minhas conquistas são alemãs. Considerei-me um alemão do ponto de vista intelectual, até que percebi o crescimento do antissemitismo na Alemanha e na Áustria alemã. Desde então, não me considero mais um alemão. Prefiro me considerar um judeu.

George Sylvester Viereck — Estou feliz Professor, que o senhor também tenha os seus complexos, que o senhor também exponha a sua mortalidade.

Sigmund Freud — Os nossos complexos são a fonte da nossa fraqueza e, com frequência, também da nossa força.

George Sylvester Viereck — Quais seriam os meus complexos?

Sigmund Freud — Uma análise séria levaria, pelo menos, um ano. Talvez demorasse até mesmo uns dois ou três anos. O senhor tem dedicado muitos anos da sua vida à caça de leões. O senhor tem procurado, ano após ano, as grandes personalidades da sua geração, invariavelmente homens mais velhos.

George Sylvester Viereck — Isso é parte do meu trabalho.

Sigmund Freud — Mas também é uma preferência. O homem importante é um símbolo. A sua busca é afetiva. O senhor está à procura do homem importante que irá tomar o lugar do seu pai. Isso é parte do complexo que o senhor tem em relação ao seu pai.

(Neguei a afirmação de Freud com veemência. Entretanto, após refletir, parece-me que pode haver alguma verdade, insuspeita para mim, na sua sugestão casual. Talvez seja o mesmo impulso que me levou a ele.)

George Sylvester Viereck — No seu trabalho “O Judeu Errante”, o senhor estende essa busca ao passado. O senhor é o eterno Explorador do Homem. Eu queria poder ficar aqui durante o tempo que fosse necessário para ver o meu interior através dos seus olhos. Talvez, como a Medusa, eu morresse de medo ao ver minha própria imagem! Entretanto acho que conheço bastante a psicanálise. Eu iria prever, ou tentar prever, as suas intenções.

Sigmund Freud — A inteligência de um paciente não é um empecilho. Pelo contrário, às vezes, ela facilita o trabalho.

(Nesse aspecto, o mestre da psicanálise difere de muitos dos seus adeptos, que se ressentem de qualquer dedução feita pelos próprios pacientes sob os cuidados deles. A maioria dos psicanalistas emprega o método da “livre associação” de Freud. Eles encorajam o paciente a dizer qualquer coisa que lhes venha à cabeça, não importando o quanto o que dizem possa ser idiota, obsceno, inoportuno ou irrelevante. Seguindo pistas que parecem não ter importância, encontram os dragões psíquicos que assustam o paciente, afugentando-os. Eles não apreciam o desejo de cooperação ativa do paciente, pois têm medo que, quando descoberta a direção da sua investigação, os desejos e a resistência do paciente lutem inconscientemente para manter seus segredos, desviando o caçador psíquico da sua pista. Freud também reconhece esse perigo.)

George Sylvester Viereck — Às vezes eu penso se nós não seríamos mais felizes se conhecêssemos menos o processo que forma os nossos pensamentos e emoções. A psicanálise tira o encantamento da vida, quando segue a pista de cada um dos sentimentos até os seus complexos básicos. Não ficamos mais felizes ao descobrir nosso lado selvagem, criminoso e animal.

Sigmund Freud — O que o senhor tem contra os animais? A comunidade animal é infinitamente melhor do que a humana.

George Sylvester Viereck — Porquê?

Sigmund Freud — Porque os animais são muito mais simples. Eles não sofrem de personalidade dividida ou desintegração do ego, problemas que surgem da tentativa do homem de se adaptar a padrões de civilização que são sofisticados demais para o seu mecanismo intelectual e psíquico. O selvagem, assim como o animal, é cruel, mas ele não tem a maldade do homem civilizado. A maldade é a vingança do homem contra a sociedade pelas restrições impostas a ele. É essa vingança que dá vida ao reformista profissional e às pessoas intrometidas. O selvagem pode cortar a sua cabeça, comê-lo, torturá-lo. Mas ele vai poupá-lo das pequenas provocações que, às vezes, tornam a vida em uma comunidade civilizada quase intolerável. Os hábitos e as idiossincrasias mais desagradáveis do homem, como a trapaça, a covardia e a falta de respeito, são produzidos pela sua adaptação incompleta a uma civilização complicada. É o resultado do conflito entre os nossos instintos e a nossa cultura. As emoções intensas, diretas e simples de um cachorro, ao abanar o rabo ou latir quando é contrariado, são muito mais agradáveis! As emoções de um cachorro me fazem lembrar um dos heróis da antiguidade. Talvez seja por isso que nós inconscientemente damos aos cães nomes de heróis da antiguidade como Aquiles ou Heitor.
George Sylvester Viereck — Até mesmo o senhor, professor, acha a existência muito complexa. No entanto, me parece que o senhor mesmo é, em parte, responsável pela complexidade da civilização moderna. Antes que o senhor inventasse a psicanálise ninguém sabia que a personalidade era dominada por um exército beligerante de complexos bastante censuráveis. A psicanálise fez da vida um complicado quebra-cabeça.

Sigmund Freud — De jeito nenhum. A psicanálise simplifica a vida. Nós atingimos uma nova síntese depois da análise. A psicanálise cria uma nova ordem para o labirinto onde estão perdidos certos impulsos, e tenta conduzi-los para o lugar ao qual pertencem. Ou, usando outra metáfora, ela é o fio que conduz o homem para fora do labirinto do seu próprio inconsciente.

George Sylvester Viereck — Em uma visão superficial, parece, entretanto, que a vida humana nunca foi tão complexa. E, a cada dia, alguma nova ideia, apresentada pelo senhor ou por um dos seus discípulos, torna o problema do comportamento humano mais enigmático e contraditório.

Sigmund Freud — Pelo menos a psicanálise nunca fecha as portas para uma nova verdade.
George Sylvester Viereck — Alguns dos seus alunos, mais ortodoxos do que o senhor, se agarram a qualquer declaração que o senhor faça.

Sigmund Freud — A vida muda e a psicanálise também. Estamos só no princípio de uma nova ciência.

George Sylvester Viereck — Eu acho a estrutura científica que o senhor criou muito complexa. E os elementos dessa estrutura, como a teoria da substituição, da sexualidade infantil, do simbolismo dos sonhos, etc., parecem permanentes.

Sigmund Freud — No entanto, torno a dizer, nós só estamos começando. Sou apenas um principiante. Consegui trazer à tona muito do que estava enterrado nas camadas mais profundas da mente. Mas, enquanto eu só descobri alguns templos, outros podem descobrir um continente.

George Sylvester Viereck — O senhor ainda dá grande importância ao sexo?

Sigmund Freud — Eu respondo com as palavras do grande poeta Walt Whitman: “Mas não haveria nada, se não houvesse o sexo”. Entretanto, como já disse, hoje em dia, eu dou a mesma importância ao que está além do prazer — a morte, a negação da vida. Esse desejo explica porque alguns homens gostam da dor — ela representa um passo em direção à morte! O desejo da morte explica por que todos os homens procuram o descanso eterno, por que os poetas agradecem:
“Onde quer que os deuses estejam,
Não há vida que viva para sempre
Os homens mortos nunca renascem,
E até o rio mais enfastiado
Segue confiante na direção do mar”.

George Sylvester Viereck — Shaw, como o senhor, não deseja viver para sempre, mas ele acha o sexo desinteressante.

Sigmund Freud — Shaw (respondeu Freud, sorrindo), não entende o sexo. Ele não faz a mais remota ideia do que seja o amor. Não existe nenhum relacionamento amoroso real nas suas peças. Ele transforma o caso de amor de César — talvez a maior paixão da história — em uma piada. Deliberadamente, para não dizer maliciosamente, ele despe Cleópatra de todo o seu esplendor e a rebaixa à condição de uma mulher insignificante, petulante e exagerada. A razão para a estranha atitude de Shaw em relação ao amor e para a sua negação do impulso primordial de todas as ações humanas, o que tira de suas peças o atrativo universal apesar da sua grande inteligência, está na natureza da sua psicologia. Em um de seus prefácios, Shaw enfatiza o aspecto ascético da sua personalidade. Posso ter cometido muitos erros, mas tenho certeza que não errei ao enfatizar a predominância do instinto sexual. Porque o instinto sexual é tão forte que se choca com muita frequência contra as convenções e salvaguardas da civilização. A humanidade, em defesa própria, procura negar a importância suprema do sexo. Analise qualquer emoção humana, não importa o quanto ela esteja distante da esfera do sexo, e o senhor vai encontrar com certeza, em algum lugar, o impulso primordial, ao qual a própria vida deve a sua perpetuação.

George Sylvester Viereck — É certo que o senhor conseguiu incutir o seu ponto de vista sobre todos os escritores modernos. A psicanálise deu nova força à literatura.

Sigmund Freud — Ela também recebeu contribuições da literatura e da filosofia. Nietzsche foi um dos primeiros psicanalistas. É incrível o quanto a intuição dele se antecipou às nossas descobertas. Ninguém identificou com mais clareza as razões para o comportamento humano e a luta do princípio do prazer pelo eterno domínio. O seu Zaratustra diz:
“Desgraça
Grite: Vá
Mas o prazer implora por eternidade,
Implora insaciável, profunda eternidade”.

Pode ser que a psicanálise seja menos discutida na Áustria e na Alemanha do que nos Estados Unidos, mas a sua influência sobre a literatura, no entanto, é enorme. Thomas Mann e Hugo von Hofmansthal nos devem muito. Schnitzler acompanha, em grande parte, o meu desenvolvimento. Ele expressa através da poesia muito do que eu tento transmitir cientificamente. Mas o doutor Schnitzler não é apenas um poeta, ele é também um cientista.

George Sylvester Viereck — O senhor não é apenas um cientista, é também um poeta. A literatura americana está impregnada pela psicanálise. Rupert Hughes, Harvey O’Higgins e outros são seus intérpretes. É quase impossível abrir um novo romance recente sem encontrar alguma referência a psicanálise. Entre os dramaturgos, Eugene O’Neill e Sydney Howard devem muito ao senhor. “The Silver Cord” (O Cordão de Prata), por exemplo, é uma mera dramatização do complexo de Édipo.

Sigmund Freud — Eu sei disso, sou grato pelo reconhecimento, mas temo pela minha própria popularidade nos Estados Unidos. O interesse dos americanos pela psicanálise não é muito profundo. A grande popularidade leva à aceitação superficial sem uma pesquisa séria. As pessoas apenas repetem o que escutam no teatro ou leem nos jornais. Eles pensam que compreendem a psicanálise, porque conseguem repetir o nosso jargão! Eu prefiro o estudo mais intenso da psicanálise nos centros europeus. Os Estados Unidos foram o primeiro país a me reconhecer oficialmente. A Clark University me conferiu um grau honorário quando eu ainda estava condenado ao ostracismo na Europa. No entanto os Estados Unidos contribuíram muito pouco para o estudo da psicanálise. Os americanos são generalizadores inteligentes, mas raramente são pensadores criativos. Além disso, os médicos americanos, bem como os austríacos, tentam apropriar-se do campo. Deixar que a psicanálise permaneça somente nas mãos dos médicos será fatal para o seu desenvolvimento A formação médica pode ser tanto uma vantagem quanto uma desvantagem para o psicanalista. Ela é uma desvantagem quando certas convenções científicas aceitas se tornam arraigadas demais na mente do estudante.

(Freud precisa dizer a verdade a todo custo! Não consegue se forçar a lisonjear os Estados Unidos, onde tem a maioria dos seus admiradores. Não consegue, mesmo estando em desvantagem, fazer as pazes com a profissão médica, que até hoje o aceita com grande relutância. Apesar da sua integridade inflexível, Freud é muito cortês. Ele ouve qualquer sugestão com paciência, sem jamais tentar intimidar o entrevistador. É raro um convidado partir sem algum presente, uma lembrança da sua hospitalidade! A noite chegara. Estava na hora de pegar o trem de volta para a cidade que um dia abrigara o esplendor imperial dos Habsburgos. Freud, acompanhado pela esposa e pela filha, subiu a escada que ligava o seu retiro nas montanhas à rua, para se despedir de mim. Ele me pareceu triste e sombrio, quando acenou para mim.)

Sigmund Freud — Não me faça parecer um pessimista — (comentou depois do último aperto de mão) — Eu não desprezo o mundo. Expressar insatisfação para com o mundo é só uma outra maneira de cortejá-lo, para conseguir plateia e aplausos! Eu não sou um pessimista, não enquanto tiver meus filhos, minha mulher e minhas flores! As flores felizmente não têm personalidade ou complexidades. Adoro as minhas flores. E não sou infeliz — pelo menos, não mais do que outras pessoas.

(O apito do meu trem soou na noite. O carro me levou à estação com rapidez. Aos poucos, a figura levemente curvada e a cabeça grisalha de Sigmund Freud desapareceram ao longe. Como Édipo, Freud olhou fundo nos olhos da Esfinge. O monstro propõe seu enigma para qualquer viajante. O andarilho que não souber a resposta será cruelmente agarrado e atirado contra as rochas. Mesmo assim, ela talvez seja mais gentil com aqueles que destrói do que com os que adivinham seu segredo.)

Texto e imagem reproduzidos do site: revistabula.com