quinta-feira, 9 de março de 2017

Cérebro se mantém ativo 10 minutos após morte de paciente

Cérebro humano (iStock/Getty Images).

Publicado originalmente no site da Revista Veja, em 8 mar 2017.

Cérebro se mantém ativo 10 minutos após morte de paciente.

Em caso inédito, paciente canadense apresentou atividade cerebral por mais de 10 minutos após ser oficialmente declarado morto.

Por Giulia Vidale.

Em um caso inédito e inexplicável, o cérebro de uma pessoa apresentou atividade cerebral persistente por cerca de dez minutos após sua morte ter sido oficialmente declarada. O caso, constatado por médicos de uma unidade de terapia intensiva (UTI) canadense, foi publicado recentemente no periódico científico The Canadian Journal of Neurological Sciences.

No artigo, os médicos descreveram as diferenças entre a atividade cerebral de quatro pacientes internados em uma UTI, um pouco antes e logo depois de sua morte clínica ser declarada. Em um dos pacientes, eles observaram que, durante mais de 10 minutos após a confirmação da morte através de uma série de observações, como ausência de pulso e pupilas não reativas, o paciente parecia ter o mesmo tipo de ondas cerebrais (ondas delta) de quanto estamos em sono profundo, segundo informações do site americano Science Alert.

“Em um paciente, rajadas de onda delta persistiram após a cessação do ritmo cardíaco e da pressão arterial (ABP)”, relatou a equipe da Universidade de Western Ontário, no Canadá.

Experiência única.

Eles também constataram que a experiência da morte é única para cada indivíduo. Os registros eletroencefalográficos frontais (EEG) da atividade cerebral dos quatro pacientes mostraram poucas semelhanças antes e depois de suas mortes.”Houve uma diferença significativa na amplitude do EEG entre o período de 30 minutos antes e o período de 5 minutos após a morte dos pacientes.”, explicam os autores.

No entanto, os pesquisadores estão sendo muito cautelosos sobre as implicações dessa descoberta, ressaltando que é muito cedo para falar sobre o que isso poderia significar para a nossa experiência pós-morte, especialmente considerando o ínfimo tamanho da amostra (apenas uma pessoa).

Inexplicável.

Na ausência de qualquer explicação biológica para o acontecimento, os pesquisadores sugerem que os sinais captados podem ser resultado de algum erro no equipamento. Mas eles também não sabem dizer que tipo de erro seria esse, já que o aparelho parece estar funcionando em perfeitas condições.

“É difícil postular uma base fisiológica para esta atividade EEG dado que ocorre após uma perda prolongada de circulação. Estas rajadas de onda poderiam, portanto, ser um erro humano na natureza, embora nenhum erro tenha sido identificado.”, escreveram os pesquisadores.

O fato é que, no nicho da necro neurociência, ninguém sabe o que realmente está acontecendo. Estudos realizados em 2016 mostraram, por exemplo, que mais de 1.000 genes continuaram funcionando vários dias após a morte de cadáveres humanos. E não é que esses genes estivessem “demorando mais” para morrer. Na realidade, sua atividade só aumentou após o óbito.

A grande vantagem desses estudos não é mostrar que entendemos mais sobre a experiência pós-morte, mas sim, que ainda temos muito a descobrir sobre o processo de morrer.

Texto e imagem reproduzidos do site:veja.abril.com.br/saude

domingo, 1 de novembro de 2015

‘A consciência da finitude nos ensina a viver’ (Irvin D. Yalom)

O terapeuta americano Irvin D. Yalom, autor de 'Quando Nietzsche.
Foto: Veja.com/Divulgação.

Publicado originalmente no site da Revista Veja, em 31 de outubro de 2015.


Entrevista com Irvin D. Yalom: ‘A consciência da finitude nos ensina a viver’.

O psiquiatra americano fala sobre envelhecimento e morte em sua nova obra.

Por: Maria Carolina Maia.

Quando escreve, em especial quando relata casos de pacientes que atende em seu consultório, o psiquiatra americano Irvin D. Yalom, hoje professor emérito de Stanford, onde lecionou por mais de 50 anos, tem em mente como leitor ideal o estudante de psicologia. Seus livros, porém, são um sucesso que extrapola esse nicho - vide o caso de Quando Nietzsche Chorou, romance com 5 milhões de cópias vendidas pelo mundo, 500.000 só no Brasil. O apelo da obra de Yalom se deve à universalidade dos temas que explora. Em Criaturas de um Dia (tradução de Ivo Korytowski, 176 páginas, 29,90 reais), livro recém-lançado pela editora Agir, o autor de best-sellers como A Cura de Schopenhauer trata do envelhecimento e da morte, a partir dos medos de seus pacientes, mas também dos próprios.

"Odeio essas situações embaraçosas. Reconhecer rostos nunca foi meu forte, e conforme envelheci isso foi progressivamente piorando", escreve, em certo trecho do livro. "Costumo refletir melhor quando ando de bicicleta. Por isso, fiz um longo passeio pela costa sul de Kauai. Isso não significava que eu havia superado meu próprio medo da morte. Isso era um trabalho constante e diário", compartilha com o leitor em outro momento. "A ansiedade diante da morte não desaparece. Especialmente para aqueles que, como eu, continuam sondando o inconsciente."

Valer-se de exemplos da própria experiência permitem a Yalom não apenas quebrar a distância que há entre terapeuta e paciente - afinal, envelhecer e enfrentar a morte não são desafios apenas para quem procura ajuda profissional. Mas também a criar aquilo que os psicólogos chamam de vínculo, um caminho útil para a cura. E o americano, que fez terapia ao longo de toda a carreira para lidar com as próprias questões e se preparar para administrar as de outros, não tem medo de falar de si mesmo.

"Acho difícil que eu volte a escrever romances aos 84 anos, um romance exige muito da memória", diz ao site de VEJA, ao comentar o próprio envelhecimento. "Todos nós, que envelhecemos, esquecemos palavras ou nomes e precisamos criar truques mnemônicos que nos ajudem a lembrar das coisas. Envelhecer é esquecer."

Ao lado do envelhecimento e da morte, a maneira como lidamos com ele é outro ponto forte de Criaturas de um Dia, um novo compilado de casos colhidos em seu consultório. "Eu trabalhei com pacientes de câncer e ouvi muitos dizerem, 'Que pena que tive de esperar até agora, que meu corpo está debilitado pela doença, para aprender a viver'." Então, essa é a vantagem de tomarmos logo consciência da nossa finitude."

Por que o senhor resolveu intitular seu livro com uma expressão do imperador filósofo Marco Aurélio, da Antiga Roma, "criaturas de um dia"?
Não é um caminho óbvio procurar agir de maneira correta para ser uma pessoa melhor? Acho que Marco Aurélio é profundo em sua simplicidade. Ele nos lembra que somos criaturas de um dia - que somos transitórios e evanescentes e que a consciência da nossa finitude pode nos ensinar algo sobre como podemos ou devemos viver. Muito tempo atrás, eu trabalhei com pacientes de câncer e ouvi muitos dizerem, "Que pena que tive de esperar até agora, que meu corpo está debilitado pela doença, para aprender a viver". Então, essa é a vantagem de tomar consciência da nossa finitude e deixar que esse saber nos guie e nos ajude a decidir como viver. Toda vez que volto a Marco Aurélio, me sinto iluminado por ele. Um dos aspectos interessantes desse livro foi que eu recomendei a leitura de Marco Aurélio para dois pacientes meus e cada um tirou algo diferente - mas útil - do autor. E, além disso, algo diferente do que eu imaginava que tirariam da leitura.

Muitos de seus pacientes encontram sentido para a vida em seu consultório. É mesmo importante dar um sentido à vida?
Eu posso ajudar pacientes a encontrar ou inventar um significado para as suas vidas, e isso é de fato útil. O livro Em Busca de Sentido (Vozes), do psiquiatra austríaco Viktor E. Frankl, é um best-seller há meio século porque ali Frankl descreve como a ideia de dar um significado à vida o fez sobreviver a um campo de concentração. Ele quis viver para sair dali e compartilhar essa experiência com outras pessoas, para que muitos soubessem e a atrocidade não se repetisse. Como disse Nietzsche: "Aquele que tem um porquê para viver pode suportar qualquer coisa".

Há pessoas que, depois do nascimento de um filho, passam a pensar menos na morte. Temos filhos para espantar o medo da morte?
Sim, essa é uma observação interessante. Crianças são, como disse, o nosso projeto de imortalidade, mesmo que não tenhamos consciência disso. Em um livro que escrevi um bom tempo atrás, De Frente para o Sol - Como Superar o Terror da Morte (Agir), eu mencionei que a transmissão (de genes, de nós mesmos) era uma das formas potentes para dissipar a angústia da morte - a ideia de transmissão para o futuro, de passar algo de si mesmo aos outros como a ondulação provocada por uma pedra jogada na água.

No capítulo sobre a enfermeira que conforta os outros, mas não a si mesma, o senhor cita o poeta irlandês William Butler Yeats para dizer que o luto pela morte de uma criança é a "tragédia levada ao paroxismo". Isso lembra a comoção mundial causada pela recente morte, por afogamento, de um menininho sírio. Por que é mais difícil aceitar a morte de uma criança?
Acredito que a morte de uma criança seja a mais difícil de todas de suportarmos. Pais que perderam filhos enfrentam uma angústia extraordinariamente dura. Por um lado, essa perda é também a morte do nosso projeto de imortalidade - a inviabilidade de projetarmos a nós mesmos ou parte de nós mesmos no futuro. É uma catástrofe poderosa que não raramente acaba com casamentos. Cada um, pai e mãe, sente a perda à sua maneira, o que resulta na quebra do vínculo conjugal. Um dos pais, por exemplo, pode viver seu luto mantendo um memorial do filho morto em casa, deixando seu quarto, com as roupas e os móveis, intacto, e querer falar sobre a morte com frequência. Já o outro pode escolher negar a perda e mergulhar no trabalho para não pensar a respeito.

Também no capítulo sobre a enfermeira, o senhor diz à sua paciente que as ações são mais importantes que os pensamentos. Isso é sempre verdade?
Fantasiar uma relação com outra pessoa, portanto, não é trair o parceiro? Se fantasiar uma relação com outra pessoa é uma forma de traição, então, temo que não haja inocentes entre nós.

É mesmo mais digno, como o senhor escreve, manter a compostura diante da morte e não demonstrar desespero? 
É difícil imaginar alguém que não sinta ou demonstre desespero em algum ponto do processo de morrer, mas ao mesmo tempo eu penso que há como transcendê-lo. Lembro que o meu grupo de pacientes com câncer, que deixei algum tempo atrás, tinha uma mulher que caía frequentemente em desespero, até que um dia ela apareceu muito mais vigorosa, muito mais viva e, quando eu perguntei o que havia acontecido, ela disse que havia decidido ser, para seus filhos, um modelo de como encarar a morte com elegância. Em outras palavras, encontrar um sentido no processo, mesmo que seja o processo de deixar a vida, pode nos ajudar a superar o desespero.

O envelhecimento parece um tema difícil para o senhor, mas, como ele surge bastate no livro, é preciso perguntar: como lida com ele hoje?
Eu tenho 84 anos e todos os dias testemunho o que é envelhecer. Sou abençoado por ter saúde física, mas poucos de nós escapam à perda da memória. Estou escrevendo um livro de memórias agora - algo apropriado para se fazer na minha idade - e sinto que deveria escrever rápido, enquanto ainda consigo lembrar tudo de que me lembro agora. Tenho sorte de ter uma parceira de vida, a minha mulher, que eu conheci aos 15 anos. Ela está ao meu lado e pode me ajudar com coisas que eu tenha esquecido. Todos nós, que envelhecemos, esquecemos palavras ou nomes e precisamos criar truques mnemônicos que nos ajudem a lembrar das coisas. Não acho que exista alguém com 80 anos que não tenha tido a experiência de entrar em um quarto sem saber por quê, por exemplo. Envelhecer é esquecer.

O senhor tem romances sobre Nietzsche, Espinoza e Schopenhauer. Vê muitas semelhanças entre a filosofia e a psicanálise? 
Anos atrás, quando era um estudante de psiquiatria, me vi descontente com os principais quadros de referência disponíveis - um esquema formal de psicanálise e um referencial médico-biológico. Foi quando me ocorreu que a psiquiatria não teria começado de fato no século XIX, com as descobertas de Freud e Jung, e sim remontaria aos textos dos grandes filósofos da antiguidade. Tem sido o trabalho da minha vida tentar tirar lições de grandes pensadores e escritores, como Epicuro, Plantão, Camus, Kierkegaard, Spinoza, Schopenhauer e muitos outros e aplicar seus pensamentos à psicoterapia.

No epílogo de Criaturas de um Dia, o senhor diz esperar que o livro aumente a sensibilidade dos terapeutas para temas existenciais, que são muito presentes em toda a obra. Com um assunto tão premente e o gosto claro por filosofia, por que o senhor nunca escreveu um romance sobre Sartre ou outro grande nome do Existencialismo?
É tudo uma questão de mortalidade. Se pudesse viver mais e continuar a escrever romances, eu com certeza consideraria escrever sobre Camus e Sartre, porque eles fizeram descobertas extraordinárias. Contudo, se a gente olhar de perto, vai ver que poucos romancistas continuam a escrever depois dos 80 anos de idade. Escrever um romance é uma façanha da memória. Quando faz um capítulo, você tem de ter em mente tudo o que aconteceu nos anteriores, desde a trama desenhada para o livro. Escrever é difícil, e por isso pode ter vida mais curta.

Em que medida um terapeuta precisa ser maduro e bem resolvido para atender com eficiência os seus pacientes? 
Sempre que meus alunos me perguntavam sobre a necessidade de treinar para atender, em um consultório, eu enfatizava que eles deviam fazer terapia, como pacientes. E sublinhava que deviam fazer isso várias vezes ao longo da vida, para lidar com questões que surgem com o tempo, como a angústia que vem com o envelhecimento. Eu fiz terapia durante toda a minha carreira. E, cerca de 30 anos atrás, comecei um grupo com outros nove psiquiatras - um grupo sem líder em que nos encontrávamos para trocar ideias e experiências, e que foi uma importante fonte de apoio e formação. Recomendo a todos os terapeutas.

Texto e imagem reproduzidos do site: veja.abril.com.br

sábado, 23 de março de 2013

Cérebro, Máquina de Aprender - 1/5


Jornal da Globo, edição de 18/03/2013
Cérebro molda suas funções e capacidade pelo constante uso
Para que bloco se transforme em escultura, o que sobra deve ser removido.
No cérebro, o que faz essa eliminação é justamente o uso.
Christiane Pelajo

Este é o primeiro episódio da série especial "Cérebro, máquina de aprender". Durante toda a semana, o Jornal da Globo mostrará que a aplicação da neurociência, a ciência que estuda o cérebro, é capaz de resultados excepcionais na vida das pessoas.
O órgão mais complexo do corpo humano tem capacidade de se moldar ao longo da vida. Nós somos capazes de aprender sempre.
Um menino muito curioso, Jian tem 11 anos e, até o ano passado, não sabia ler, nem escrever. Já tinha passado por várias turmas, até entrar na sala da tia Ana. Em três meses, tudo mudou.
Professora há 15 anos, Ana Presciliana Santos observa atentamente cada aluno. Assim, consegue perceber as dificuldades deles, e sabe como motivar a criançada. Ana ensina brincando.
Ana trabalha há cinco anos em uma escola municipal de uma região pobre de Juiz de Fora, em Minas Gerais. A maneira como a professora ensina mudou completamente há três anos, quando descobriu a neurociência, a ciência que estuda o cérebro.
Desde então, 100% dos alunos que passaram pela sala da tia Ana saíram alfabetizados. “Cada dia você ativa uma área do cérebro, com desenho, com arte, com gráfico, com tudo, e eles ficam mais felizes, aprendem mais, se concentram mais”, diz.
“Não pense que a criança está perdendo tempo porque ela está usando um videogame ou ela está brincando com o violão. Se, na sequência, você mudar para matemática, aquilo que era muito chato, abstrato, incompreensível, passa, quem sabe, a ser interessante, porque o cérebro dela está preparado para focar atenção. Ela está feliz porque fez uma coisa interessante”, afirma Roberto Lent, neurocientista da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Nós somos o nosso cérebro. Sem ele, nada no corpo funcionaria. Para falar, andar, comer, se mexer, para tudo o que fazemos, precisamos do cérebro. O órgão pesa muito pouco, não chega a um quilo e meio. Ocupa menos de 2% do corpo, mas consome 20% da nossa energia.
Nosso cérebro custa caro. “Custa caro em termos de energia e em termos de investimento. Entre 500 e 600 calorias mais ou menos, daquelas 2 mil que a gente consome por dia, vão só para manter o cérebro funcionando”, diz Suzana Herculano-Houzel, neurocientista da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
“É mentira, completamente mentira, a gente usa o cérebro todo, 100% do cérebro, inclusive enquanto você está dormindo”, afirma Suzana, sobre a história de que só 10% do cérebro são usados. É o nosso órgão mais complexo.
“A única coisa que se compara ao cérebro é o numero de galáxias no universo. A ordem de dimensão é a mesma, são centenas de bilhões de neurônios”, diz Miguel Nicolelis, chefe do departamento de Neurociência da Universidade Duke (EUA).
Assim como as galáxias, o cérebro é difícil de desvendar. É a parte do nosso corpo que menos se deixa revelar. Temos cerca de 86 bilhões de neurônios, que são células especializadas em comunicação.
A atividade cerebral é a troca de informações entre esses neurônios, mas eles não se tocam diretamente. A comunicação se dá através da sinapse, que é a conexão entre neurônios. É a área em que dois neurônios passam informações de um para o outro através de impulsos elétricos.
 O cérebro nasce com aproximadamente 250 bilhões de sinapses. Aos oito meses, o bebê já fez 600 bilhões de sinapses.  Esse excesso de conexões no começo da vida é apenas matéria-prima.
É como se fosse um bloco de gelo bruto. Ali dentro há todas as possibilidades de escultura, mas, por enquanto, ainda não é nada. Para que este bloco se transforme em uma escultura de fato, todo material que está sobrando tem que ser removido. No cérebro, o que faz essa eliminação é justamente o uso.
Quanto mais a gente usa o nosso cérebro, mais ele vai se definindo. As conexões que a gente não usa vão sendo eliminadas. Aprender muda o cérebro. Somos capazes de modificar a nossa estrutura cerebral até o último dia de nossas vidas. Vários estudos já comprovaram isso.
Um deles foi realizado com taxistas de Londres. Neurocientistas conseguiram comprovar que a massa cinzenta dos motoristas de táxi aumenta depois que eles memorizam as ruas da cidade. Para poder dirigir um desses símbolos de Londres, não basta ser um bom motorista. É preciso estudar muito para conseguir decorar 25 mil ruas.
O duro treinamento leva cerca de três anos e apenas metade dos candidatos consegue passar. Na pesquisa feita pelos neurocientistas ingleses, foi usado um aparelho de ressonância magnética funcional, que mede a mudança no fluxo sanguíneo dentro do cérebro, enquanto os candidatos a taxista jogavam um videogame que recriava as ruas do centro de Londres.
Os pesquisadores iam acompanhando o que acontecia no cérebro deles. A conclusão foi que os aprovados ganharam, além da licença para dirigir táxis, uma massa cinzenta bem maior.
Neurocientistas são unânimes em afirmar que é possível melhorar a capacidade do nosso cérebro sempre, mas... “Fazer só palavra cruzada não é a solução, mas usar e manter o cérebro sendo desafiado continuamente, intelectualmente. É quase como músculo. Se você para de usar o músculo, tem uma atrofia. O cérebro é muito assim”, afirma Nicolelis.

Foto e texto reproduzidos do site: http://migre.me/dOnLQ

Cérebro, Máquina de Aprender - 2/5


Jornal da Globo, edição de 19.03.2013
Exercício cerebral constante pode levar à excelência no que se faz
Praticar modifica o cérebro.
Motivação, foco, atenção e anos de prática lapidam talentos.
Christiane Pelajo
  
Este é o segundo episódio da série especial "Cérebro, máquina de aprender". Durante toda a semana, o Jornal da Globo mostrará que a aplicação da neurociência, a ciência que estuda o cérebro, é capaz de resultados excepcionais na vida das pessoas.
Ana Botafogo e Thiago Soares, dois ícones do balé clássico. Joe Satriani, John Petrucci e Steve Morse, três gênios da guitarra. Além de serem excepcionais no que fazem, o que mais eles têm em comum?
Muita coisa: motivação, foco, atenção e anos e mais anos de prática. Os três guitarristas começaram a tocar ainda muito jovens, por volta de 11, 12 anos de idade, e estudam até hoje. “É um instrumento que você pode estudar a vida inteira, e ainda assim vai encontrar desafios”, afirma Steve Morse, guitarrista do Deep Purple.
A mais famosa primeira bailarina brasileira dança desde criança. “São muitas horas de exercício, são exercícios a vida toda”, afirma Ana. O primeiro bailarino do Royal Ballet de Londres começou um pouco mais tarde, já adolescente, mas treina muito, todos os dias da semana. “Umas seis horas e meia a oito horas por dia, fora os espetáculos”, diz Thiago.
Tanta dedicação assim explica, em parte, o sucesso deles. “A princípio, qualquer pessoa pode se tornar excelente, extraordinária no que ela faz, desde que ela tenha um interesse extraordinário pelo que ela faz, e a oportunidade de praticar a um nível extraordinário também com aquilo. É suor mesmo”, diz Suzana Herculano-Houzel, neurocientista da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Praticar modifica o  cérebro. Para percorrer uma mata, você tem que construir uma série de trilhas. Depois de algum tempo, você percebe que só vai explorar algumas trilhas e elas se tornam mais largas, viram quase estradas.
As que você não percorre vão desaparecendo e, depois de um tempo, a sua mata está assim. É exatamente o que acontece no nosso cérebro. Quanto mais praticamos, mais fortalecemos o caminho que o nosso cérebro faz para executar uma determinada tarefa. Assim ficará mais fácil achar essa trilha da próxima vez.
Há períodos na vida em que ocorrem mudanças no cérebro com mais intensidade. São as chamadas janelas de oportunidade. A maior delas acontece quando deixamos de engatinhar e começamos a andar.
“A criança, até os dez meses de idade, é quadrúpede. Vai engatinhando, e tem um cérebro que funciona que nem o do cachorro ou de qualquer animal quadrúpede. Olhar como um quadrúpede olharia. Quando a criança começa a ficar em pé, descobre um mundo novo”, afirma o neurocientista Ivan Izquierdo, da PUC/RS.
"Aí nascem novos neurônios, ou crescem conexões entre neurônios da vida bípede e morrem diretamente os neurônios que ele carregava da vida quadrúpede. Depois nunca mais na vida teremos uma perda tão gigantesca como essa”, afirma Izquierdo.
“A aprendizagem é toda mais fácil quando é feita de criança. Quanto mais cedo ela puder aprender, melhor”, diz Paulo Ronca, doutor em Psicologia Educacional da Unicamp. É possível começar a criar memórias de longa duração desde pequeno.
Esse é o objetivo da escola municipal de Guarani, uma cidade mineira de apenas 9 mil habitantes. Os professores usam fundamentos da neurociência, a ciência que estuda o cérebro, para preparar os alunos para a alfabetização.
Quem trouxe a neurociência para algumas escolas de Minas Gerais foi a professora Elvira Souza Lima, coordenadora do projeto Escrita para Todos.  “A criança, nesse período, que é o período do faz de conta, ela cria, mas tem que ser um criar sem avaliação. Então, para a criança que canta todo dia, desenha todo dia, escrever todo dia vai ser absolutamente uma consequência natural”, diz.
Lá, nada é forçado. A ideia é que o aprendizado seja natural, sem imposições, sem críticas. Muito pelo contrário: segundo a neurociência, elogiar é fundamental. “Elogiar é uma motivação extraordinária. Eu acho que precisa ser mais usada, em escolas, em casa”, diz Herculano-Houzel.
“É isso que nós queremos: que nosso aluno tenha, aqui na escola, uma emoção positiva para que ele guarde aquilo na memória e possa usar lá na frente”, afirma Eliana Alvim, supervisora da escola de Guarani.
Não são só emoções positivas que a gente guarda na memória. Acontecimentos negativos também podem ficar para sempre na nossa cabeça. Quem não se lembra onde estava no dia 11 de setembro de 2001? “Todo mundo se lembra onde estava, com quem falou, que horas eram. Foi um momento emocionalmente muito forte, muito intenso.  Então, isso grava melhor”, afirma Izquierdo.
Gravamos até quando não fazemos, até quando não estamos executando a ação. Neurocientistas afirmam: imaginar é quase praticar. “Se eu pedir a você que se imagine andando de bicicleta, é capaz de imaginar-se andando de bicicleta. Se você fizer isso, e eu puder registrar as suas áreas cerebrais, o seu cérebro em funcionamento, as regiões que vão estar ativas são muito parecidas, praticamente as mesmas, que estão ativas quando você, de fato, está andando de bicicleta. Daí se pode concluir que a imaginação é um treinamento.”, explica Robert Lent, neurocientista da UFRJ.
 Ana Botafogo e Thiago Soares sabem bem disso. “Tem coisas que eu não quero me desgastar fisicamente porque eu já fiz muito. Então, faço na memória, ou faço pensando, imaginando que eu estou fazendo. Às vezes, a gente até fala, marcando”, diz Thiago.
Foi imaginando que o jogador de basquete Michael Jordan ganhou um dos títulos dele na NBA, a liga profissional americana. “O mundo inteiro esperava aquela jogada para ganhar o título. Como ele recebeu a bola, e faltavam três segundos, o Michael Jordan ia tentar fazer a cesta. Só que ele pensou anos antes, anos, que se ele tivesse em uma situação dessas, ele ia passar a bola. Porque ia ter alguém sozinho, e foi exatamente o que aconteceu. Três jogadores vieram nele, e tem um jogador que ninguém mais lembra, que é o Carr, que pega a bola e faz a cesta”, diz Miguel Nicolelis, chefe do departamento de Neurociência da Universidade Duke (EUA).

Foto e texto reproduzidos do site: http://migre.me/dOnDT

Cérebro, Máquina de Aprender - 3/5


Jornal da Globo, edição de 20/03/2013
Trabalho de neurocientistas melhora desempenho de estudantes e atletas
Treinamento aumenta a capacidade de concentração e o autocontrole.
Estudantes se aprimoram com jogos de tabuleiro e de raciocínio.
Christiane Pelajo
  
Este é o terceiro episódio da série especial "Cérebro, máquina de aprender". Durante toda a semana, o Jornal da Globo mostrará que a aplicação da neurociência, a ciência que estuda o cérebro, é capaz de resultados excepcionais na vida das pessoas.
Como você lida com os desafios que surgem na sua vida? Foi com essa pergunta na cabeça e a asa delta nas mãos que o recordista mundial em número de voos duplos, o carioca Ruy Marra, se jogou, sem medo, em uma área que tem muito a revelar: a neurociência, a ciência que estuda o cérebro, aplicada ao esporte.
Ruy já voou com 20 mil pessoas e notou que elas reagem de forma diferente na hora da decolagem. Ficou curioso para saber por que todo mundo garante que vai correr na rampa, mas só 5%, de fato, correm para valer.
O instrutor e o aluno dele têm que alcançar 19 quilômetros por hora nessa corridinha antes do voo. Neste momento, o cérebro joga adrenalina no sangue. O coração começa a bater mais rápido. Os pulmões também passam a respirar mais rápido para gerar mais oxigênio. Todos os músculos do corpo se contraem para formar uma espécie de couraça de proteção. Agora, sim, o corpo está preparado para começar o voo.
Ruy quis saber o que se passa na cabeça das pessoas quando estão diante de situações de tensão. Fez uma pesquisa com 2 mil pessoas que voaram com ele durante dez anos. “Eu comecei a encontrar padrões de comportamento sob estresse. Na praia, eu tinha um questionário sobre tônus afetivo, sobre pai e mãe, matriz emocionais parentais, interações sociais”, diz.
Ruy descobriu que a reação de cada um depende do afeto que essa pessoa recebeu na infância. Neurocientistas afirmam que as trocas afetivas entre pais e filhos no começo da vida são fundamentais para a formação do sentimento de segurança nessa criança no futuro.
Ruy, que é neurocientista, estudou muito e percebeu que poderia ajudar atletas a melhorar seu desempenho trabalhando o cérebro deles. “Imagina que você está na área de aquecimento agora. Trabalhando a respiração. Focada nos movimentos. Que você vai executar durante a luta. Imagina as adversárias que você vai enfrentar”, diz à judoca Kelly Rodrigues. Parece um joguinho bobo, mas fez toda a diferença na vida de Kelly.
Moradora da Rocinha, no Rio de Janeiro, a maior favela da América Latina, ela começou a lutar há cinco anos. O início foi bem difícil. “Ficava nervosa, tremendo, e, na hora de lutar, não conseguia fazer, acabava caindo. Quando o Ruy começou a ajudar a gente com respiração, eu comecei a ter mais foco, conseguia escutar mais o técnico, que não conseguia antes”, afirma a judoca.
A Confederação Brasileira de Judô também usa neurociência no treinamento de seus atletas, e teve resultados. O judoca Rafael Silva, o Baby, ganhou bronze em Londres. “O esporte é feito de detalhes. Todo mundo chega muito treinado, mas, na hora, ali, o mental vai definir a luta, quem está melhor preparado mentalmente”, diz. Fazer parte da seleção brasileira em 2016 é o sonho da Kelly, e ela está lutando muito pra conseguir.
Os neurocientistas usam um aparelho chamado biofeedback nos atletas. Um sensor é colocado na orelha dos judocas para medir a frequência cardíaca.  Quando estão nervosos, ansiosos, o batimento fica irregular.
Para evitar isso, os atletas aprendem uma técnica de respiração para treinar o coração, que envia sinais elétricos para o cérebro. São esses sinais que fazem a asa delta do joguinho ganhar altura e velocidade.
O treinamento aumenta a capacidade de concentração e o autocontrole dos judocas.  Explorar a pausa é o que fazem também os alunos de uma escola municipal de Caucaia, cidade que fica na região metropolitana de Fortaleza. “Antes eu fazia as contas sem pensar, agora eu penso como o método do semáforo, que a tia ensinou: tem que parar, pensar e agir”, diz o estudante Alexsandro Garcia Pereira, de 11 anos.
A metodologia do semáforo é simples e muito funcional. “Quando a gente está na aula de história e geografia, eles param para pensar. Não é que nem antes, que eles diziam qualquer resposta para ser engraçado”, afirma a professora Valdenir Cavalcante.
As crianças são incentivadas a fazer uma tarefa de cada vez. Neurocientistas são unânimes em afirmar que ninguém consegue prestar atenção em duas coisas ao mesmo tempo.
“Quando a gente diz que consegue ler e ver televisão ao mesmo tempo, não consegue. Seus olhos podem continuar se movendo na página, mas ou você registra o texto que está ali na frente dos seus olhos, ou você registra o texto que está ouvindo da televisão. As duas coisas ao mesmo tempo nao acontecem”, afirma a neurocientista da UFRJ, Suzana Herculano-Houzel. “O que a gente consegue fazer é alternar entre duas coisas”, diz.
A escola de Caucaia é uma das mais de 600 que trabalham com um método israelense, baseado na neurociência, trazido ao Brasil pela pedagoga Sandra Garcia.  Eles usam jogos de tabuleiro e de raciocínio.
“Eu aprendi a raciocinar mais, a pensar mais, e melhorei muito nas matérias”, diz a estudante Michele Martins.“Eu não conseguia pensar, fazia tudo ligeiro, aí eu tirava nota baixa. Agora, eu começo a pensar e fazer as contas direito”, afirma o estudante Francisco José Guimarães.
Eles têm apenas uma aula por semana de 50 minutos com os jogos e acabam levando o que aprendem para as outras matérias. “O jogo usa o raciocínio, você encontrar uma outra maneira de resolver uma questão. É o que eu sempre digo para eles, que não existe só uma resposta. Você não pode chegar à resposta só por um caminho. São vários caminhos para chegar a uma mesma resposta”, afirma Valdenir.
Não é só na escola que eles aprendem. Os estudantes ganham os tabuleiros e levam para casa. Alexsandro, aluno do colégio há quatro anos, mora com a família na zona rural de Caucaia. “Eu perdi a vergonha, tenho mais coragem de ler, falo mais com as pessoas. Ler nos ajuda a ser alguém na vida”, diz.

Foto e texto reproduzidos do site: http://migre.me/dOnzh

Cérebro, Máquina de Aprender - 4/5


Jornal da Globo, edição de 21/03/2013
Projeto pioneiro une neurociência à educação em escolas no Brasil
Iniciativa é do neurocientista Miguel Nicolelis.
Neurociência explica e melhora desempenho de esportistas.
Christiane Pelajo

Este é o quarto episódio da série especial "Cérebro, máquina de aprender". Durante toda a semana, o Jornal da Globo mostrará que a aplicação da neurociência, a ciência que estuda o cérebro, é capaz de resultados excepcionais na vida das pessoas.
Parece bem difícil fazer a ultrapassagem na Fórmula 1, ainda mais a 300 quilômetros por hora, mas, para os pilotos profissionais, não é. Até porque, em muitos momentos, eles enxergam como se estivesse em “slow motion”.
“Você está atrás de um carro, e a reação é muito rápida. Tem que decidir rápido demais, mas a sua decisão, você acaba enxergando em câmera lenta. Mais ou menos imagina a reação do carro da frente também”, diz o piloto Felipe Massa.
Não são só os pilotos de Fórmula 1 que têm essa sensação. Uma pesquisa feita por neurocientistas de uma universidade da Inglaterra provou isso.
A maioria dos laboratórios de neurociência de Londres fica em volta da Queen Square, a "praça rainha". Foi no Instituto de Neurociência Cognitiva da University College que foi feita uma pesquisa comprovando essa percepção de muitos atletas.
O profissional está tão treinado, tão condicionado para, por exemplo, devolver uma bola em um jogo de tênis ou ultrapassar um carro, no caso de um Piloto de Fórmula 1, que o cérebro dele tem a ilusão de ter mais tempo pra fazer aquela ação. Essa ilusão, claro, é sempre muito bem-vinda.
O responsável pelo estudo é o neurocientista japonês Nobuhiro Hagura, que recebeu a equipe do Jornal da Globo no laboratório dele, na capital inglesa. Hagura diz que, com a ilusão de ver tudo em câmera lenta, fica mais fácil para o piloto profissional fazer a ultrapassagem, já que ele consegue processar com mais detalhes as informações que entram no cérebro dele.
Há exercícios que intensificam ainda mais essa percepção, como o que o piloto Bruno Senna faz antes das corridas. Parece uma brincadeira boba, mas está longe disso.
O piloto usa um óculos criado especialmente para este tipo de treinamento. É como se a lente ficasse piscando. A impressão é a de que estão acendendo e apagando as luzes. “Depois, você tira os óculos, e fica um pouco mais lento. O tempo na sua frente fica um pouco mais lento, porque você está vendo muito mais do que estaria vendo com o óculos. É como se você estivesse fazendo o seu cérebro usar mais a informação que ele tem”, afirma Bruno.
Era exatamente o que fazia o tio de Bruno, Ayrton Senna. Ele conseguia usar, como poucos, as informações que tinha e, sempre, impressionava os mecânicos. “O cara conseguia acertar o carro sentindo no corpo dele as nuances do asfalto, que a telemetria da Honda não conseguia detectar. Então o corpo dele era um transdutor para o cérebro dele que ultrapassava a tecnologia”, diz o neurocientista Miguel Nicolelis, chefe do departamento de neurociência da Universidade Duke (EUA).
Mas quantos Ayrtons existem? Se depender de Nicolelis, cada vez veremos mais brasileiros geniais no que fazem. O neurocientista já está fazendo a parte dele. Em Macaíba, na região metropolitana de Natal, no Rio Grande do Norte, há um projeto pioneiro e ambicioso, que une neurociência à educação: o Campus do Cérebro, criado por Miguel Nicolelis.
A obra começou em 2010 e já impressiona pelo tamanho. É uma mega estrutura no meio de uma zona rural. Não há nada em volta. A construção deve ficar pronta ainda este ano. Será uma escola de tempo integral para 1.500 crianças ao lado de um grande centro de pesquisa de neurociência.
“A ideia é começar no pré-natal. Acompanha-se a mãe e a criança, cria-se um histórico, e aí a gente acompanha essa criança ao nascer até o final do Ensino Médio, agora em uma escola própria do Campus do Cérebro, onde as crianças vão poder ficar em tempo integral, desde o nascimento até o final do Ensino Médio”, afirma Nicolelis.
Não será a primeira experiência da equipe de Nicolelis em sala de aula. Desde 2007, eles são os responsáveis pelo projeto Educação Para Toda Vida, para jovens de dez a 15 anos. Em dois colégios no Rio Grande do Norte e um na Bahia, 1.500 alunos participam de aulas em laboratórios, oficinas de biologia, computação, ciências, robótica. “Em casa, ajudo a minha mãe, Quando quebra alguma coisa, eu a ajudo”, diz o aluno Adrian Everton Barbosa.
As aulas que eles têm são extracurriculares e apenas duas vezes por semana. Os alunos vieram de escolas públicas da região, onde continuam estudando, mas agora têm dois colégios, cada um em um turno.
“Nós fomos a escolas com dificuldades porque a minha proposta era essa mesma. Eu quero ir a um lugar onde ninguém iria, eu quero ir a um lugar onde as crianças jamais receberiam essa atenção”, diz Nicolelis.
O currículo é totalmente prático, inspirado no conhecimento neurocientífico de que o cérebro aprende por associação. “Quando a gente associa à prática, leva isso para o resto da vida”, afirma o professor André Ricardo Bandeira de Carvalho.
Os resultados são animadores. “O que eu estou percebendo desde o início do projeto, é, exatamente, o comprometimento dos alunos”, diz Itamar Bezerra da Nóbrega Neto, professor e coordenador da Oficina de Robótica.
“Eles passaram a ter um maior empenho nos estudos, passaram a ter um maior desejo de aprender”, afirma Dora Maria Montenegro, diretora do instituto. O projeto, que mudou a realidade desses alunos, deve servir de exemplo para outras escolas brasileiras.
“A escola tem que abrir a imaginação dessas crianças para o impossível. Elas têm que sonhar com o impossível, porque mesmo que elas não cheguem lá, o caminho para chegar ao impossível sempre vai dar lucro. Você sempre vai fazer alguma coisa que vale a pena”, diz Nicolelis.

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Cérebro, Máquina de Aprender - 5/5


Jornal da Globo, edição de 22/03/2013
Carreiras e atividades específicas ajudam a desenvolver memória
Atores e professores têm a memória mais exigida.
Tenistas profissionais melhoram com a ajuda da neurociência.
Christiane Pelajo
   
Este é o quinto e último episódio da série especial "Cérebro, máquina de aprender". Durante toda a semana, o Jornal da Globo mostrará que a aplicação da neurociência, a ciência que estuda o cérebro, é capaz de resultados excepcionais na vida das pessoas.
Murilo Rosa, 42 anos, ator. Elvira Souza Lima, 62 anos, professora. Será que essas duas profissões têm algo em comum? “As duas profissões que se caracterizam por conservar a memória em idades avançadas são a de ator e a de professor, as duas em que o indivíduo mais tem que ler. A leitura é uma das coisas que mais ajudam na memória, que mais exercitam a memória”, diz o neurocientista Ivan Izquierdo, da PUC/RS.
E acredite: malhar também faz bem à memória. Pesquisas de universidades americanas mostraram  que a prática regular de atividades físicas ajuda a pensar com mais clareza e melhora a aprendizagem.
Antes de ser ator, Murilo Rosa era atleta. Chegou a participar de dois campeonatos mundiais de tae-kwon-do. Murilo pratica, com frequência, duas coisas que ajudam e muito na memória: leitura e exercícios físicos. Não é à toa que ele lida com tanta tranquilidade com os textos que precisa decorar.
“O cérebro da gente é tão complexo, é tão interessante, que aquilo ali já vai se tornando parte de você. Vai ter uma hora que você vai estar repetindo aquele texto que você nem acredita que sabe daquilo”, diz o ator.
Aprender é criar novas memórias de longa duração. Um dos maiores especialistas no mundo em memória é categórico. “Todas as memórias são associativas. A memória é um fato associativo”, afirma Izquierdo.
Veja essa situação como exemplo: você pensou em Florianópolis, onde esteve em dezembro. Dezembro lembra o seu filho porque é o aniversário dele. Aí você se recorda da festa, do bolo do aniversário, do presente que ele te pediu. Isso te faz lembrar do cartão de crédito, que você usou para bancar a festa. Lembra de dinheiro e ativa áreas de matemática no seu cérebro.
A partir de agora, você passa a se concentrar nas contas que tem para pagar. É a chamada memória associativa, quando uma coisa leva à outra. Se você associar o que aprende a algum conhecimento antigo, que você já tenha, fica mais fácil guardar para sempre na sua cabeça.
É justamente o que tentam fazer os professores do colégio Porto Seguro, em São Paulo. Eles trabalham com fundamentos de neurociência. Um deles é transformar o aluno em protagonista.
“Você consegue não prestar atenção quando você é o centro das atenções? Não. Usar atividades em que o aluno faça algo, produza alguma coisa, colabore com os outros, é fundamental. Uma das melhores maneiras de aprender é justamente ensinar”, afirma a especialisa em educação e neurociênciaTracey Espinoza.
Outra descoberta da neurociência fundamental para aprendizagem é a importância do sono. “Nas últimas décadas, o que tem se mostrado é que o cérebro continua muito ativo durante o sono, e essa atividade está a serviço da consolidação da aprendizagem”, diz Fernando Louzada, doutor em Neurociência pela USP.
Se o estudante não dormir bem, não vai conseguir prestar atenção na aula, e ninguém aprende sem estar atento. Uma pesquisa da Fundação Americana do Sono revela que 60% dos adolescentes sentem sono de manhã.
Ou seja, matar a primeira aula, chegar atrasado na segunda e dar uma cochiladinha na terceira não é apenas corpo mole. É fruto dos hormônios. “O ideal seria o turno único, começando 9h, 10h, com atividades mais lúdicas, porque a maioria dos seres humanos é vespertina”, afirma Robert Lent, neurocientista da UFRJ.
Sair da cama cedo para praticar o esporte que mais ama não é sacrifício algum para Bruno Sant’Anna. Ele tem 19 e é uma das promessas do tênis brasileiro nas Olimpíadas do Rio de Janeiro.
Com o objetivo de aprimorar o desempenho de seus atletas, a Confederação Brasileira de Tênis (CBT) assinou um convênio com o laboratório de neurociência do esporte da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
“Hoje, basicamente, os tenistas reclamam da ansiedade e concentração. O nosso trabalho é em cima da concentração, que seria a tensão, e tem a ver com memória de trabalho, com tomada de decisão. Em todos os equipamentos, a gente monitora as funções executivas”, diz Emílio Takase, especialista em neurociência aplicada ao esporte.
A equipe criou softwares que ajudam a desenvolver o treinamento cognitivo dos tenistas.
Enquanto os atletas usam os joguinhos, os profissionais monitoram a frequência cardíaca, a respiração, as ondas cerebrais. “A princípio, acredita-se que o comportamento que ele vai ter nesse tipo de situação vai ser o mesmo em quadra, em situação de jogo. A gente procura treinar isso”, afirma Mark Caldeira, da CBT.
Bruno tem suado a camisa fora e dentro de quadra pra fazer bonito em 2016. Mesmo durante o jogo, lá está a equipe monitorando tudo. A ideia é deixá-lo sob pressão para ver como se sai.
“A pressão é um privilégio. Por melhor que você seja, você nunca pode ficar totalmente confortável numa situação de pressão", afirma o tenista Roger Federer. Palavras do maior vencedor de todos os tempos, que mudou completamente de comportamento ao longo da carreira.
No começo, Federer se descontrolava, mas acabou aprendendo a lidar com a pressão. Durante um ano e meio, teve um treinador mental, como ele mesmo diz, que fez toda a diferença na vida dele.
Hoje, vemos em quadra um Federer equilibrado, tranquilo, em paz, dono de um recorde de 17 Grand Slams. “É emocionante imaginar que o corpo humano pode fazer isso, porque existe aqui alguns quilinhos de matéria cinzenta que transforma os nossos desejos e pensamentos naquela poesia motora”, diz Miguel Nicolelis, chefe do departamento de Neurociência da Universidade Duke.

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domingo, 20 de janeiro de 2013

Como Despertar a Criatividade

Foto: Thinkstock/Getty Images

Para ser mais criativo, amplie seu leque de atividades: ouça músicas de estilos diferentes, procure ter um ciclo grande de amigos e se interesse por filmes de gêneros distintos

Alessandra Oggioni - especial para o iG São Paulo | 20/01/2013 

Como despertar a criatividade
Mudar o foco, assistir a comédias e até fazer serviços domésticos: confira 15 dicas que podem ajudar no desenvolvimento do processo criativo

Pode soar estranho, mas, para aflorar a criatividade, a solução pode ser... lavar louça! Esta é a dica preciosa do cartunista Laerte, que vai para a pia de casa toda vez que o cérebro está um pouco cansado. “É um truque legal. Já vi isso funcionar para mais de uma pessoa”, conta o desenhista.

Para alguns, como Laerte, a criatividade pode parecer algo natural. Com a obrigação de criar pelo menos sete tirinhas de quadrinhos por semana, ele diz que as histórias simplesmente surgem. “Para mim, não existe isso de não vir uma ideia. O que acontece é que, às vezes, sinto o pensamento mais ou menos arenoso”, afirma – é nesta hora que ele encara a pia de louça.

Para outros, no entanto, ser criativo parece bem mais difícil. Mas segundo Fábio Zugman, autor dos livros “Criatividade Sem Segredos” (Atlas, 2010) e “O Mito da Criatividade” (Elsevier, 2008), esta é uma característica que pode, sim, ser melhorada dia após dia. “Costumo falar que a criatividade é como a musculação: você não nasce musculoso. Você tem um potencial e precisa desenvolvê-lo”, comenta.

Para Zugman, o grande segredo de uma pessoa criativa é buscar experiências diferentes. “Tudo pode ser matéria-prima para ter ideias”. Isso significa possuir um ciclo grande de amigos, interessar-se por filmes de gêneros diferentes, ouvir músicas de estilos distintos, ou seja, ampliar o leque de atividades.

Sem invenções mirabolantes

Quando se fala em criatividade logo vem em mente nomes como o de Einstein, Picasso ou Steve Jobs. Mas especialistas concordam que não é necessário ser autor de grandes invenções para ser considerado original. Basta dar soluções diferentes para problemas do cotidiano, como um atendente de telemarketing que tem uma ideia simples para resolver o caso de um cliente ou um professor que encontra uma maneira divertida de fazer os alunos aprenderem física.

“A criatividade não é domínio exclusivo das pessoas que geram novos produtos ou estratégias de marketing. É preciso ser criativo para lidar com mudanças, reduzir custos, gerar melhorias, solucionar problemas, lidar com pessoas e situações difíceis”, explica a consultora Gisela Kassoy, especialista em Criatividade e inovação.

Para o neurologista Leandro Teles, a solução criativa aflora quando se consegue driblar os caminhos do raciocínio lógico, o tal “pensar fora da caixa”. “Isso acontece quando escapamos do óbvio e alcançamos uma visão alternativa, diferente da média da população”, diz o médico.

No entanto, muitas pessoas precisam quebrar barreiras para desbloquear a mente e conseguir iniciar o processo criativo. “Alterar modelos mentais, cultivar sentimentos de autoconfiança, energia e bom humor podem melhorar a capacidade de criar”, afirma Victor Hugo Soler Montalvo, psicólogo organizacional e especialista em Criatividade.
  
- Não se apegue à primeira ideia que vier à cabeça. “Procure ter pelo menos três soluções diferentes para cada situação”, indica a consultora Gisela Kassoy.

- Aceite as ideias alheias. O truque aí é desenvolver o espírito do “por que não?”, ou seja, a vontade de aceitar novos pensamentos, mesmo que, eventualmente, seja preciso modificá-los um pouco.

- Se estiver com dificuldade de criar, afaste-se do projeto que está trabalhando por um período. Pode ser uma pausa para um cafezinho, um banho ou para lavar louça, como faz o cartunista Laerte.

- Não censure as ideias por mais bobas ou absurdas que pareçam. Depois, selecione tudo e ordene os pensamentos, deixando fluir o processo criativo.

- Imagine a situação ou o projeto de maneira metafórica. “Por exemplo, se alguém precisa criar uma estratégia motivacional para sua equipe de colaboradores, pode imaginar que está lidando com um jardim com diferentes tipos de plantas, algumas com espinhos, outras muito frágeis e assim por diante”, aconselha Gisela Kassoy.

- Recorra a personagens. Basta imaginar qual ideia alguém famoso daria para o seu projeto. Por exemplo, o que Pelé, Bill Gates ou Silvio Santos fariam no seu lugar?

- Assista a uma comédia ou qualquer coisa que faça rir. Pesquisas mostram que o bom humor tem influência positiva na criatividade. “Por isso, é comum uma pessoa ter uma experiência boa num dia e, depois, ter uma grande ideia”, explica Fabio Zugman.

- Fuja de ambientes ruins. Procure um lugar diferente quando quer ser criativo. Se no escritório o trabalho não está fluindo, vá para um café ou um parque e passa a tarde lá. Quebre a rotina.

- Tenha um quadro de ideias, algo que seja físico mesmo, como um caderninho para guardar fotos, idéias ou papeis que possa ser consultado depois.

- Administre as interrupções quando estiver em processo criativo. Um telefone que toca na hora errada pode bloquear sua nova ideia.

- Faça exercícios. Em longo prazo, eles têm relação com produtividade e criatividade, pois também trazem ganhos para o cérebro.

- Coma um chocolate ou tome um café, de maneira moderada. Em curto prazo, eles podem dar um pico de energia e ajudar na busca de uma solução original.

- Mude o foco. Trabalhar em algo diferente por algumas horas pode ajudar a ventilar as ideias. Depois, provavelmente o processo criativo fluirá com mais facilidade.

- Preste atenção em tudo o que acontece ao longo do dia. “O processo mental que a gente usa para atravessar um dia e uma noite é de uma complexidade e de uma riqueza muito grandes”, aconselha o cartunista Laerte.

- Ouça seu sexto sentido. “A intuição é função cerebral guiada por experiências nem sempre conscientes. Pessoas criativas exercitam, valorizam e expressam suas intuições. Com bom senso, dê vazão às sensações pouco ancoradas na lógica e na razão”, finaliza o neurologista Leandro Teles.

Artigo reproduzido do site: delas.ig.com.br/comportamento